QUANDO O DESEJO FALA MAIS ALTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de agosto de 2001
Leandro Calixto<BR>TV Press 
Vera Holtz está se acostumando a interpretar mulheres atiradas. Depois de dar vida à ''Tiazona'' Santa em ''Uga Uga'', a atriz de 49 anos e indisfarçável sotaque do interior paulista ela é de Tatuí empresta seu talento para compor a repressora Marta na minissérie ''Presença de Anita''. Na trama de Manoel Carlos, mesmo sendo uma racista assumida, Marta vai acabar se envolvendo com André, um empregado negro de sua fazenda vivido pelo estreante Taiguara Nazareth. ''Ela vai ter um desejo sexual incontrolável por ele. Por isso, acredito que muitas mulheres mais maduras vão acabar se identificando com minha personagem'', imagina Vera.
A atriz também está virando uma especialista em minisséries. A última que participou na Globo foi a bem-sucedida ''A Muralha'', onde viveu a matriarca Mãe Cândida. ''Nas minisséries, a gente tem a possibilidade de fazer um trabalho de pesquisa muito mais apurado. O próprio público acaba percebendo isto'', enfatiza Vera. Apesar de gostar de fazer mais minisséries, Vera é o tipo de atriz que garante não se preocupar se seus trabalhos dão audiência ou não. ''Isto é um problema da emissora. Minha responsabilidade é artística. Mas é claro que quando cai no gosto do público é mais gostoso'', completa.
Como está sendo a experiência de interpretar uma mulher reprimida e preconceituosa como a Marta?
Quando fui chamada para fazer este personagem, confesso que logo de cara fiquei muito estimulada. Justamente pelo lado conflituoso da Marta. Ao mesmo tempo em que ela é uma mulher racista, a Marta acaba tendo um incontrolável desejo sexual por um negro que trabalha em sua fazenda. Só que o mais importante neste trabalho é o fato da personagem dar uma margem para discussão racial no Brasil. O discurso do racismo no país é muito repetitivo. Mas na prática, a gente não vê nenhum avanço na discussão deste tema.
Justamente por interpretar uma mulher tão contundente como a Marta você não teme alguma represália do público?
Realmente no Brasil, o público ainda confunde o ator com o personagem. Mas eu só estou contando uma história. Acho até que boa parte do público feminino vai acabar se identificando com a Marta. Principalmente pelo desejo dela se relacionar com um rapaz bem mais jovem do que ela.
Você não acha que o tema central de ''Presença de Anita'', tantas vezes abordado na dramaturgia o homem maduro que se apaixona por uma adolescente não vai acabar saturando?
Depende muito de como se aborda. Este tema é recorrente de uma idéia prática: casais que se separam e em busca de um estímulo maior, acabam se envolvendo com outros parceiros. Por isso, que continuo achando que esta história pode ser contada de várias formas. Na verdade, qualquer tipo de notícia acaba inspirando os autores. É impressionante a capacidade de criação e imaginação deles.
Este é o segundo trabalho que você faz com Manoel Carlos, o primeiro foi a novela ''Por Amor''. O que mais chama atenção no texto do Maneco?
No Brasil, temos grandes contadores de história. Mas o Maneco realmente é fantástico. O grande barato do texto dele é a maneira simples que ele escreve. Ele mostra com uma grande propriedade o nosso cotidiano. Por isso, que o público acaba se identificando muito com todos trabalhos desenvolvidos por ele.
''Presença de Anita'' vem com toda responsabilidade de tentar levantar o horário das minisséries na Globo, depois do fracasso de audiência de ''Os Maias''. Vocês atores vem sentindo algum tipo de cobrança?
Na verdade, quando a gente está jogando, no caso fazendo um trabalho na televisão, a gente quer mais que a equipe faça o gol. Ou seja: conquiste uma boa audiência. Esta é a nossa maior recompensa num trabalho como este. Só que na verdade, os números de audiência cabem somente a emissora. Nossa parte, é procurar manter uma boa qualidade artística. Somos cobrados para isso.


