Quando o desamor bate à porta
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de junho de 2002
Antônio Mariano Júnior<br>Reportagem Local 
Mas há que se louvar
- - - - entre altos e baixos
- - - - O amor quando traz tanta vida
- - - - Que até pra morrer leva tempo demais
- - - - (Altos e Baixos, Sueli Costa e Aldir Blanc)
Eros faz a parte dele, mas quando as mitológicas bênçãos perdem a vibração é um ai atrás do outro. E ai daquele que nunca teve cotovelos febris, dores ao ponto de chorar até beirar a desidratação. Se amar é privilégio de maduros, como diria Drummond, quem ousou colocar o coração como serviço da utilidade pública necessita rever conceitos poéticos? Ora, maduros e imaturos pedras e manteigas derretidas estão suscetíveis ao lado amargo do amor. Ricos, pobres, homens, mulheres, brancos, negros, amarelos, mamelucos, enfim, toda a fauna e flora humana já sofreu de um dos males do século: a dor-de-cotovelo. E quando se está esfolado de amor, não há como escanear, com os olhos, paisagens por mais belas que sejam.
Pois é, tem gente que ama que até perde o prumo. E quando isso acontece a música Meu Mundo Caiu, da Maysa, é cantiga de rodas. Marcela Dolores (nome fictício), funcionária de uma empresa privada, sabe muito bem o que é desatinar. Ela lembra que teve três relacionamentos secretos desses que a sociedade não aprova publicamente em que amou adoidada. O mais longo durou dez anos. Quando terminou, foi aquele fuá, com direito a porres homéricos. Uma vez cheguei a acordar na sarjeta. Às vezes dormia na rede para não sentir o cheiro da outra pessoa na cama. Sempre fui muito dramática, sofro muito. Mas meu processo de dor-de-cotovelo tem começo, meio e fim. Hoje aprendi a sofrer menos, conta ela. E como explica, a música desempenha um papel importante. Afinal, sofrer a seco não tem dramaticidade as lágrimas parecem vir contadas. E dá-lhe, na listagem de Marcela, Adriana Calcanhotto, Elis Regina, Cássia Eller, Zizi Possi, enfim, algumas cantoras básicas quando o negócio é sofrer.
O dentista Hélio Takeda conta que, quando terminou um relacionamento de dois anos, se apegava ao violão e cantava quantas vezes fosse preciso Diga lá, meu coração, de Gonzaguinha. Pensando, claro, na mulher que lhe disse basta. Namoravam à distância ela era de São Paulo , mas Takeda garante que os quilômetros foram apenas um fator de complicação e não o motivo principal. Foi um momento duro que chegou a afetar o meu dia-a-dia. Chorava desesperadamente de saudade. Mas hoje tenho consciência de que chorar foi e é um grande analgésico, analisa. A ex-amada até tentou reaproximações. Tarde demais. Takeda já havia suturado a ferida. Ela tinha a falsa segurança que poderia voltar quando quisesse. Minha vontade de superar aquela situação era tão grande que não vi possibilidade de volta, diz ele.
Sonho com ele quase todas as noites. Quem diz é a professora aposentada e também (ótima) cantora, Célia Castro. O nome do dito cujo, ela não revela. Mas há quarenta e dois anos anos nutre um amor que que teve começo quando ainda adolescente e que até hoje lhe faz tremer nas bases. Chegou até a noivar, porém a distância essa maldita distância fez com que o relacionamento se acabasse e ela se acabasse em dores. À sua maneira, Célia reergueu-se, teve outras paixões, casou apaixonadíssima, separou, enviuvou e as lembranças do grande amor ainda rondam por toda a alma. Os outros foram paixões. Esse homem foi e é o grande amor, afirma com veemência.
O reencontro aconteceu em 81, 14 anos depois do adeus-amor-eu-vou partir. Houve namoro, mas fui mais prática do que romântica. Enfim, as circunstâncias não ajudaram, revela. Esporadicamente, segundo ela, se vêem. Mas fica por isso mesmo. No entanto, os sentimentos estão intactos. Quando isso acontece a perna amolece, fico pálida... Mas sinceramente acho que esse amor ainda está reservado para o momento certo, diz esperançosa.
É através da música que Célia extravasa suas emoções. O repertório, claro, é romântico. E dentre as músicas que mais lhe tocam profundamente a preferida é Por Causa de Você (Tom Jobim - Dolores Duran). Fico arrepiada por inteiro, confessa.
Fé. Foi em que se apegou a bióloga e dentista Sílvia Veras para superar o fim de dois fortes relacionamentos um casamento de 17 anos e um namoro de quatro anos e meio. Há três anos está sozinha e, garante, serena e tranquila. A ruptura causa uma dor muito grande, quase um processo de morte. Para sair dessa é preciso liberar o perdão para quem te machucou e foi o que fiz.
Além do apego a Deus, a natação também ajudou a aliviar as tensões e ansiedades. Nadava 1,5 mil metros quatro vezes por semana, conta. Por ser bonita e independente, muitos amigos não conseguem entender o porquê de ela estar sozinha, sem alguém para chamar de seu. A fé me dá forças para transceder tudo isso. No entanto tenho certeza que quando o homem idealizado chegar eu saberei diagnosticar, avisa.
Ok, depois de tanta pancada na alma o jeito é dar a volta por cima. Afinal, o fundo do poço tem molas que impulsionam a gente para cima. Só agora Carlos Machado (nome fictício), produtor cultural, sabe que para bom entendedor um risco quer dizer Francisco. Há dez anos ele investiu todo amor num romance com um rapaz de Curitiba. Conheceram-se numa boate e... Foi um final de semana cor-de-rosa. Então, tá! Durante meses Carlos ia ver o amado que, por sua vez, nem tchuns de dar as caras em Londrina. Eu babava de amor e chorava até em propaganda da Bom Brill, diz brincando. Convites para mudar-se à capital havia, mas a possibilidade da cara-metade vir para o interior...
Um santo dia, numa das idas para as bandas de lá, viu o amado no maior quebra pau a coisa foi feia, conta com o ex-afeto. Foi aí que caiu a ficha e Carlos viu que era a hora de tirar o cavalinho da chuva. Percebi que era uma coisa neurótica e dei um basta naquela situação, conta. Isso não sem antes chorar gostoso no ombro da empregada do, da, enfim, daquele ingrato. Sofreu mais um ano, recorreu a terapia durante um tempo, refez-se. Hoje reconhece: Eu amei de mais e o outro amou de menos.
A promoter londrinense Maria Thereza do Prado Machado também já encharcou lenços e fronhas por causa de um grande amor. Eram amigos, tinham muitas afinidades e de repente ela percebeu que estava apaixonada. Houve reciprocidade, ma non troppo: Eu o admirava em todos os sentidos, afirma. O escolhido não morava em Londrina e a coisa foi se complicando. Ele era muito trabalhador igual a mim, mas eu queria romantismo, diz. E daí o affair foi ladeira abaixo. Ficou a saudade e aquele gosto amargo de decepção amorosa. Tinha noite que eu acordava, ficava pensando e chorava de saudade. Sou meio fossenta, admite.
Além da saudade, ficaram para Tetê, como é mais conhecida, as músicas que serviram de trilha sonora ela gravou um CD só com músicas que embalaram o namoro, entre elas, Bolero da Neblina (Nana Caymmi), Amores Possíveis (com Paulinho Moska), All or Nothing at All (Patrícia Baber) e Coração Leviano (com Djavan). E também a maturidade. Posso dizer que esse foi um amor que valeu a pena até ter sofrido, diz.
O desamor ou a perda de um amor também pode ser explicada na teoria. Ou melhor, cientificamente. Todo mundo é vulnerável a viver uma frustração amorosa. Mas a partir de um histórico de fracassos amorosos, a tendência é construir uma certa resistância a novas relações, diz Wiliam Peres, professor-mestre do Departamento de Piscologia Clínica da Unesp (Assis/SP) e doutorando em Saúde Coletiva pela IMS/UERJ. Vivemos numa sociedade de cultura narcisista em que buscamos sensações e prazeres que nos garantam o bem-estar possível. E nas relações de amor isso não é diferente, completa.
Segundo ele, muitas pessoas o procuraram em busca de um lenitivo para a dor. E os sintomas mais comuns eram depressão, baixa-estima, sensação de estar sem nenhuma energia. E claro, nesse estado de abandono, como explica, algumas pessoas recorrem ao álcool ou drogas para amenizar o sofrimento. E quando alguém quer ajuda, Peres é categórico. Não há receita para não sofrer. A psicoterapia surge como uma possibilidade de a pessoa reencontrar o equilíbrio. Pode-se também recorrer a remédios, mas corre-se o risco de a pessoa precisar novamente dessa solução. O ideal seria o casamento entre o tratamento medicamentoso e psicoterápico.
Ah, sim, mudança de ares também está na ordem do dia dos que estão com os cotovelos em chamas e com a alma amarfanhada. É, como afirma Peres, romper a repetição e buscar novas atividades (curso, esporte, cinema, visita a amigos, etc).
Enquanto a luz no fim do túnel não sinaliza saídas, quem sofre por amor é capaz de coisas incríveis. Tais como ficar dias, horas, meses, anos vendo a vida por quem não merece.


