Quando convocou a primeira entrevista para divulgar a programação do 33º Festival de Música de Londrina, há uma semana, o diretor artístico Marco Antônio de Almeida foi enfático ao anunciar um espetáculo de dança de rua ao som de "Petroushka", tema para balé composto pelo russo Igor Stravinsky (1882-1971), no início do século 20. "Será um escândalo no Calçadão!", declarou.
O espetáculo abre a programação de hoje, às 11h30, com coreografia executada pelos dançarinos da ARDC, companhia formada por alunos do projeto "A Rua Dança a Cidade". A música será interpretada ao vivo a dois pianos e quatro mãos pelo duo alemão Halensis, formado por Lisa Marie Schneider e Jan Vorrath.
Raras vezes a união do clássico e o popular gerou tanta expectativa entre os que acompanham o Festival. "Petroushka" foi escrita durante o inverno de 1910-1911 para os Ballets Russes. O libreto, assinado por Stravinsky em parceria com Alexandre Benois, narra uma história de um teatro mambembe em que bonecos envolvem-se num triângulo amoroso adquirindo vida e desenvolvendo emoções como os seres humanos.
"Petroushka" é o desengonçado palhaço que ama a bela Bailarina, que ama o Mouro, que não ama ninguém. O balé estreou em Paris sob direção de Pierre Monteux, com coreografia de Mickhail Fokine e com Nijinsky no papel-título. No ano passado, a Cia Ballet de Londrina estreou uma montagem de dança contemporânea baseada na obra. O convite, agora, para adaptar o balé clássico para a linguagem da street dance, foi recebido com entusiasmo pelos dançarinos do projeto "A Rua Dança a Cidade".
"O grupo estava disposto a enfrentar novos desafios e essa parceria dá continuidade a outras que já fizemos com o Festival", diz Gustavo Garcia, diretor artístico do ARDC. O elenco se apresentará com 12 integrantes, sob direção de Édio Gonçalves. De acordo com Almeida, a plateia irá se surpreender com a montagem. Ele lembra que a recepção da obra original, antes da I Guerra Mundial, foi impactante.
"O público da época estava habituado a assistir balé clássico, como o Lago dos Cisnes, com bailarinas da ponta dos pés. Essa coreografia, porém, trazia movimentos ritualísticos, tribais e viscerais. Sua permanência até hoje, passado mais de um século, me levou a apresentá-la para o grupo do projeto A Rua Dança a Cidade porque ele faz uma interessante reflexão sobre o domínio do corpo. Fui num ensaio deles e fiquei emocionado. Penso inclusive em levar o espetáculo para um teatro", assinala.
"Uma de nossas características é que tentamos fugir dos estereótipos de um grupo tradicional de hip hop, de break, com seus movimentos acrobáticos e saltos mortais. Procuramos fazer uma releitura de todas as manifestações de dança urbana, desde o soul, o funk, a disco music, o tecno, o pop de Michael Jackson e o hip hop. Buscamos também valorizar a contribuição individual de cada dançarino", salienta Garcia.
O projeto é desenvolvido há 11 anos em Londrina com oficinas de iniciação às danças urbanas. A iniciativa é viabilizada com verbas do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). A sede dos cursos e ensaios fica na Vila Usina Cultural, que recebe jovens de várias regiões da cidade. Os alunos que se destacam passam a integrar a companhia, sem deixar de realizar as aulas do projeto. "Alguns já encaram suas atividades com uma visão profissional. Pretendemos nos estabelecer como uma companhia de dança da cidade", diz o diretor do ARDC. Na próxima semana eles viajam para Santa Catarina para participar do Festival de Dança de Joinville, o maior do País.


Confira a programação para hoje.

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