Quando o assunto é a morte
Arquivo FolhaEliana Louvison: segundo a psicóloga, deve-se falar sobre tudo com as crianças, sem sonegar informações mesmo quando o assunto é a morte
Quando o assunto é a morte
O livro A Vontade dos Cometas trata de um assunto tabu: conversar sobre a morte com as crianças
Érika Pelegrino
- ...Vô! Você vai morrer mesmo? Não tem jeito?... Então, a gente não fala mais nada, certo?
- ...Não tenho mesmo mais nada para dizer, Giggio!...
- ...É...Nem eu.
Foi uma conversa dura, pontuada por risadas e brigas. Como contar a Giggio que em breve seu avô não estaria mais por perto. O pai achava melhor deixar uma carta para ser entregue ao garoto quando este estivesse mais maduro. Mas o avô optou por uma conversa aberta, cara a cara. Para tanto recorreu a recursos como o ciclo da vida de bichos e cometas, numa conversa dolorosa que marcaria o crescimento afetivo e emocional de Giggio.
A Vontade dos Cometas, do escritor carioca Luiz Antônio Aguiar, lançado pela Editora Melhoramentos, trata de um tema muitas vezes considerado tabu pelos adultos: a morte. E mais ainda: a morte em uma conversa com uma criança.
Muitas vezes os adultos fogem do assunto, como o pai de Giggio.
Como tratar com uma criança de um tema para o qual mesmo os adultos muitas vezes ainda buscam uma resposta? Existe uma idade certa? Esperamos que a criança nos questione, ou abordamos o assunto? Floreamos ou vamos direto ao assunto?
É muito mais simples do que parece. A psicóloga Eliana Louvison parte do princípio de que o ser humano necessita de sentidos para viver e para construí-los precisa de palavras. A criança mais ainda, pois possui menos recursos para construir sentidos.
Partindo deste pressuposto deve-se falar de tudo com as crianças, sem sonegar informações e sem cometer excessos. A criança não precisa de explicações, segundo Eliana, mas de palavras. Palavras com as quais ela irá construir seu próprio conceito de morte. Palavras com as quais ela criará suas próprias explicações para a morte.
As palavras são ofertas que servirão de recursos para a criança construir seus próprios conceitos, afirma. Estas palavras, de acordo com Eliana, devem expressar a verdade de quem está falando. O assunto deve ser tratado como outro qualquer, de preferência quando questionado.
É justamente no questionamento, ou melhor, na ausência do questionamento, que segundo Eliana Louvison, encontra-se a dificuldade. Em decorrência da transformação da sociedade a morte deixou de fazer parte do convívio familiar.
O velório não é feito mais em casa, o doente fica no hospital e, consequentemente, não morre mais em casa, a criança não vê mais o frango que corria no quintal ser destroncado e ir para a panela, não vê mais o caixão passando em frente de casa. Todas estas situações, comuns há algumas décadas, levavam o ser humano a entrar em contato com a morte factual na mais tenra idade.
Hoje, a morte não é apresentada mais como um fato, mas como um acidente. A criança de hoje conhece a morte acidental da mídia e a morte dos videogames, onde sempre há a primeira, a segunda, a terceira vida. Além de descaracterizar a morte como um fato, a mídia oferece uma resposta pronta, fechada: morre-se de acidente.
Segundo Eliana Louvisom, diante desta resposta as crianças não questionam, e se mantêm na ingenuidade. Um belo dia um adolescente com seus 15 anos fica sabendo que seu avô morreu de velhice, por exemplo. Resultado: tem um choque e vai parar em um psicólogo por absoluta falta de recursos para interpretar o fato.
A saída hoje, de acordo com a psicóloga, tem sido falar sobre a morte através da literatura. As histórias infantis oferecem os elementos para levar as crianças a refletir sobre o assunto.
A bibliotecária Sueli Bortolin também salienta a importância de se abordar o tema na literatura infanto-juvenil. Segundo ela, a morte é um assunto raro nos livros destinados ao público infantil e juvenil. Pode-se atribuir isto a insegurança, ao medo e também a falta de habilidade que temos ao conversarmos sobre o tema, afirma.
Ela atenta para o fato de que o assunto não precisa ser abordado de forma dramática ou deprimente, mas sim com bom humor. Como exemplo, a bibliotecária cita o livro De Morte, de Angela Lago, publicado pela Editora RHJ. O livro conta a história de um velhinho que engana a Morte e o Diabo em muitas peripécias para viver mais tempo.
Através de histórias ou em uma conversa direta é importante que se trate do assunto com franqueza e sempre deixando que a criança crie suas próprias explicações e conceitos. Com isto o adulto não matará na criança a curiosidade para continuar refletindo e questionando, afirma Eliana Louvison.





