Quando o amor é maior que o tabu
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de abril de 1999
Elisa Marilia Carneiro 
O incesto é o tema da peça Ágatha, da dramaturga e escritora francesa Marguerite Duras, hoje, na 32ª Mostra Regional/Nacional e Universitária do Festival Internacional de Londrina (Filo). Sob a direção de Roberto Lage, o grupo Teatro Instalação de São Paulo, surpreende pela sobriedade com que o tema é tratado e pela concepção do espaço cênico.
Uma instalação - concebida pela artista plástica Pinky Wainer -, abriga apenas 40 espectadores que permanecem sentados em volta da ação que se desenvolve no mesmo plano, sem tablado, como voyeurs de uma transgressão, um embate contido de paixão e culpa, segundo o diretor. Lage já esteve no Filo dirigindo o Grupo Proteu, na montagem de Jennifer - O Amor é Mais Frio que a Morte, em 1995.
Em Ágatha, dois irmãos se encontram para uma despedida. Duas almas aprisionadas pelo amor que nutrem uma pela outra. Com sensibilidade, o tema é trazido à cena através do amor entre dois irmãos. Não se trata de um crime e sim de um amor que está além de qualquer juízo de valor. Um amor mais forte do que os preconceitos sociais e do que a própria moral.
Marguerite Duras, conhecida por sua obra literária de personalidade, por muito tempo considerada hermética e intransponível, ganha espaço na representação do que não pode ser dito, do proibido, do velado.
Nesse contexto, o amor ganha uma força descomunal que desestrutura e banaliza qualquer coisa que for pré-concebida. O espectador participa desse encontro como um espião. Os atores são Luciano Schwab e Isabel Teixeira, formados pela Escola de Arte Dramática de São Paulo.
Ágatha marca um encontro com seu irmão para comunicar a decisão de partir para o outro lado do mar, um lugar qualquer, distante. O tempo presente do encontro logo se mistura à lembrança de um passado comum entre eles. Passado que carrega uma história de amor que está além de suas forças.
A partida de Ágatha não é uma tentativa de rompimento definitivo, uma vez que este amor se alimenta da própria impossibilidade e insiste em perdurar. O espectador acompanha a trajetória deste encontro, onde cada palavra tem um sentido suplementar ao sentido literal. O que aconteceu e ainda acontece entre eles, quase não pode ser verbalizado e é nesse contexto que reside a força da peça.
Ágatha, com o grupo Teatro Instalação, de São Paulo. Direção de Roberto Lage, texto de Marguerite Duras e instalação cenográfica de Pinky Wainer. Hoje, às 22 horas, em espaço alternativo ainda não definido pela organização do Filo. Informações: 324-8694 ou 322-1030. 324.9202. Ingresso a R$ 10,00 (Estudantes, funcionários e idosos têm abatimento de 50 por cento)


