Nos dias de hoje, não é fácil deixar o cinismo de lado e encarar a emoção verdadeira. Só por isso, o diretor pernambucano Heitor Dhalia já seria merecedor de aplausos. Mas seu novo longa, ''À Deriva'', uma das estreias da semana em Londrina, vai além disso. É, de longe, o filme nacional mais interessante da temporada até agora.
Enquanto a maioria de seus colegas corre atrás de temas sociais ou históricos (quase sempre tratados de maneira torta), Dhalia conta uma história intimista e delicada. O foco, aqui, é uma família em pleno processo de dissolução, numa época em que o divórcio ainda não era tão comum. No centro da trama está uma garota de 14 anos, que descobre sua sexualidade ao mesmo tempo em que assiste aos pais seguirem caminhos opostos.
O cenário é a cidade de Búzios, no litoral do Rio de Janeiro, entre o fim dos anos 70 e o começo dos 80. É lá, durante as férias de verão, que o casal Mathias (Vincent Cassel) e Clarice (Débora Bloch) tenta reunir os últimos cacos de seu relacionamento, ao lado dos três filhos. A mais velha, Felipa (Laura Neiva), logo percebe que o pai tem uma amante na praia, e associa o caso ao alcoolismo da mãe. Enquanto isso, se vê às voltas com os primeiros sinais de desejo por outros garotos.
Aos poucos, ela percebe que não há vítimas ou culpados nesse drama. Ou, talvez, que todos têm sua parcela de responsabilidade. E assim, sem julgamentos, o roteiro escrito por Dhalia (com colaboração de Vera Egito), envolve o espectador até um desfecho mais realista do que redentor.
É verdade que o diretor muitas vezes se entrega a uma estética publicitária. Também quase escorrega nas sequências finais, quando solta a mão do volante e, por pouco, não põe tudo a perder. Ainda assim, no saldo geral, ''À Deriva'' tem muito mais acertos do que erros.
A começar pela escolha do elenco principal. Vincent Cassel, um dos maiores atores franceses da atualidade, está perfeito no papel do estrangeiro que ''se encontra'' no Brasil. Débora Bloch, cada vez mais bonita, agarra-se com força ao seu primeiro grande papel no cinema em anos. E a estreante Laura Neiva, descoberta pela produção no Orkut, empresta seu frescor a uma personagem que tinha tudo para cair na mesmice.
Destaca-se, ainda, o conjunto ''atemporal'' da fotografia, trilha sonora, direção de arte e figurino (que não especifica o ano em que o filme se passa, apenas sugere um período). Mas quem sai ganhando mesmo é Heitor Dhalia. Depois do quase insuportável ''Nina'' e do cult-bizarro ''O Cheiro do Ralo'', o pernambucano mostra uma evolução considerável neste terceiro longa - e ganha uma nova perspectiva em sua carreira.
Não à toa, ''À Deriva'' foi selecionado para a mostra Um Certo Olhar, do Festival de Cannes 2009, de onde saiu com contratos de distribuição em 11 países.

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