Quando Jabor falava por imagens
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quinta-feira, 03 de janeiro de 2002
Rodrigo Souza Grota 
Poucos cineastas no Brasil têm sua obra lançada em DVD. Praticamente nenhum, exceto o jornalista e ex-cineasta carioca Arnaldo Jabor. A distribuidora Versátil preenche essa lacuna agora com o lançamento de cinco discos do autor: Toda Nudez Será Castigada (1973), O Casamento (75), Tubo Bem (78), Eu Te Amo (81) e Eu Sei Que Vou Te Amar (86).
São filmes que marcaram época, mostrando um Jabor mais próximo das imagens de um Brasil real, que pensa, sofre, se angustia, chora, sorri e ainda dramatiza a realidade. De todos, o melhor é a primeira adaptação que Jabor realizou da obra do mestre Nelson Rodrigues - Toda Nudez.... Ali o cineasta concentra o melhor de seu cinema - personagens bem construídos, atores inspirados por um tom obsessivo característico de Nelson, e um sábio equilíbrio entre uma decoração barroca e um contexto social suburbano.
O Casamento não tem o mesmo vigor poético, mas traz um Rio de Janeiro destruído pelos grandes donos de imobiliárias cariocas e a decadência da estrutura familiar. Adriana Prieto, a musa que morreu sete dias após as filmagens, eterniza a doce e perversa Glorinha.
Tudo Bem é ainda um filme atual. Jabor pretendia provocar um riso político e crítico no espectador. Conseguiu. O casal formado por Fernanda Montenegro e Paulo Gracindo representa um Brasil que não se aguenta mais, não acredita no governo nem em uma possível consciência do povo. Mesmo sob essa catástrofe eminente, esse casal se vê limitado a dizer tudo bem....
A última fase do cineasta simboliza um retorno a suas raízes bergmanianas. Eu Te Amo e Eu Sei... pertencem a essa fase mais intimista, autobiográfica, centrada na crise dos 40 anos que acomete o homem de quando em quando.
Ao reunir esses cinco filmes, o pacote da Versátil evidencia um cinema brasileiro que pensava sua realidade, questionava seus dogmas, sugeria novas possibilidades. São filmes extremamente ligados à época em que foram feitos e que não perderam a sua atualidade. Eu Sei..., que rendeu a Fernanda Torres o prêmio de melhor atriz em Cannes, é um libelo poético tão deslumbrante quanto trágico. Nos faz sentir falta de quando Jabor se expressava por imagens... Foi um autêntico cineasta.


