Rio de Janeiro – Cada vez mais os artistas parecem ocupar uma posição estratégica no circuito das artes, de modo a participarem mais ativamente em processos que até então parecia não lhes caber, como organizar exposições e eventos, debater sobre políticas culturais, inteferir em julgamentos sobre arte e sobre o trabalho de outros artistas, escrever sobre arte, sem que percam com isto seu compromisso com a arte, pelo contrário.
O programa ‘‘Arttrain’ee’’, levado a cabo este ano no Castelinho do Flamengo (Centro cultural Oduvaldo Vianna Filho), no Rio de Janeiro, capitaneado pelos artistas Edson Barrus e Alexandre Vogler é um desses casos. Sua produção envolveu dezenas de artistas durante o ano passado dispostos em trocar idéias, discutir seus trabalhos, mostrar o que vêm fazendo. A maioria dos artistas ainda é inédita, mas nem por isso menos interessada e conectada com as questões que a arte suscita.
Em sua segunda edição, o programa vem ganhando adesões importantes e se aprimorando em seus objetivos. É assim: qualquer um que desenvolva trabalhos voltados para a arte pode se increver e agendar um horário para discutir o próprio trabalho, processo de criação, desenvolvimento de linguagem, dúvidas quanto à apresentação e exibição de sua obra. E volta quantas vezes achar necessário para falar com os coordenadores do programa. No final de um ano, aproximadamente, é realizada uma exposição coletiva com todos os que passaram por ali.
Funciona como uma espécie de terapia, de consultoria. É gratuito. E tem recebido artistas de outras cidades e regiões também, já que é aberto a quem quiser participar. Sobre a exposição, ocorrida entre dezembro de 2001 e começo de fevereiro deste ano, algumas considerações podem ser feitas. A primeira delas é sobre o espaço expositivo e sua ocupação física. O grupo Ponteseis de Niterói conseguiu resolver esta equação com uma proposta bastante inusitada, afixando uma placa de ‘‘vende-se’’ na varanda do prédio, para o lado de fora, colocando em cheque o valor e o desvalor cultural de uma instituição que abriga o que chamamos comumente de arte e mexendo com a curiosidade das pesoas com a venda de um prédio que é do patrimônio público.
Outros artistas já vieram com seus trabalhos prontos, bastando-lhes apenas um lugar em uma das salas dos três andares do edifício. Mas a maioria veio com uma idéia na cabeça e alguma coisa às mãos para instalar suas obras no espaço que acabou abrigando performances com uma boneca Barbie de verdade; marmanjos de fralda bebendo drinques feitos com leite em mamadeiras; situações e simulações em que um boneco parecia comandar o personagem da artista; ou até ser abordado por garotas entregando filipetas em que se prometia transformar qualquer um em artista de sucesso, etc., tudo concentrado em uma só noite, em meio a obras que permaneceriam no local durante dois meses, aberto a visitações.
Durante esse período, grupos diferentes de público puderam apreciar e discutir o trabalho desenvolvido ali, já que a abertura de instituições para a exposição de novos artistas é sempre problemática, além de esbarrar, normalmente, na falta de apoio para sua realização e na precariedade de meios a ela disponibilizados. Daí a virtude deste tipo de negociação entre uma coordenação de projetos e o espaço institucional que necessita de idéias capazes de oxigenar sua programação.
Treinar, trainnee, fazer aparecer, realizar. Arte também depende de treinamento, e mostrar o trabalho faz parte do exercício. Como uma espécie de aula, onde cada um aprende o que quer e tira de si o que sabe. E poderia também se chamar Programa de desbloqueio. Ou Terapia para obras de artistas. Ou Consultoria técnica do sensível. Assim, o ‘‘Arttrain’ee’’ pode ser pensado como uma referência para se discutir arte, se potencializando à medida em que vai se transformando a cada edição.
Pela natureza experimental do projeto, onde cada um participou como quis da exposição – que teve de pinturas a objetos, de instalações a vídeo , além de provocações e questionamentos – e levando em consideração a formação particular de cada um de seus participantes, o programa prova que ainda é possível criar novos mecanismos para a descoberta de artistas a procura de espaços para mostrar seu trabalho e abrindo caminhos para novas produções dentro das instituições que abrigam propostas de arte.
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