QUANDO ADRENALINA TAMBÉM É ARTE
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quinta-feira, 05 de julho de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
O fenômeno Amores Brutos começou por Cannes-2000, há pouco mais de um ano, quando o filme de estréia do mexicano Alejandro González Iñarritu levou o Grande Prêmio da Semana da Crítica e arrancou aplausos unânimes da crítica. A partir desse momento, o boca a boca correu célere entre organizadores de festivais de cinema de todos os cantos, e em pouco tempo Amores Perros (título original) era um autêntico acontecimento cinematográfico, desfilando prêmios e mais prêmios. A indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro acabou coroando a tão impressionante trajetória. Mas apesar dessa ampla circulação, que afinal resultou na abertura mais tranquila do mercado internacional, o filme está longe de ser concessivo, demagógico ou sustentado exclusivamente por uma campanha de marketing.
É um choque, sem nenhuma dúvida. E logo na primeira sequência do episódio inicial de uma trilogia que se abre e se fecha em si mesma, a tela se eletriza com a velocidade da narrativa que extravasa uma tensão quase insuportável. Ao contrário do que se imagina, o nível de adrenalina não vai mais baixar durante os próximos 153 minutos. No segmento de abertura (Octavio e Suzana), um homem dirige como louco pelas ruas da Cidade do México. Atrás dele, homens armados. E no banco de trás, sangrando, está Cofi, o cachorro de Otávio. Alguns segundo depois, uma colisão com o carro da personagem do segundo episódio. E quem tudo observa e acaba ajudando no resgate das vítimas é El Chivo, um sem-teto rodeado de cães e centro da terceira história. Na articulação desse argumento, a relação entre dois irmãos de classe baixa, que disputam o amor de uma adolescente enquanto sobrevivem graças a proscritas brigas de cães e a pequenos assaltos.
O relato de abertura é tão impactante que o espectador anseia por uma pausa, pequena que seja. E ela vem, ou não, dependendo do ponto de vista. Em Daniel e Valéria temos a relação entre um jornalista que abandona a família por uma bela modelo que tem o mundo e o cãozinho Richie a seus pés. Neste ponto Iñarritu lança um olhar incisivo no que há de patético na burguesia, misturando com sutil engenhosidade o humor absurdo de Buñuel a uma certa enfermidade social destilada pelo David Cronemberg de Crash. Tudo temperado por um sentido de desesperança que faz lembrar o Francis Coppola de A Conversação. Finalmente, a terceira história, El Chivo e Maru, centraliza o foco num ex-guerrilheiro comunista, fisica e moralmente liquidado depois de cumprir 20 anos de pena (um fantasma que segue vivendo, como se auto-define). Ele agora é assassino profissional, enquanto busca obsessivamente a filha que abandonou quando um dia resolveu mudar o mundo.
Ainda que as três partes tenham linearidade, mantida a ordem de princípio-meio-fim, nada impede que Iñarritu as subverta indefinidamente, em seu princípio-meio-fim...Em todas o começo é uma espécie de engano, alguma coisa ou alguém aparenta o que na verdade não é. E alguns personagens são forçados a atuar em lugares aos quais não pertencem. Entre todas as partes, o nexo da estrutura são os cães, a traçar um paralelo com o destino dos homens. E o resto são as feridas. As histórias são também sobre tentativas de mudanças, tentativas de escapar de uma situação incômoda idealizando um futuro melhor. Octavio deseja fugir com Suzana, Daniel deixa a família para estar com Valeria, e El Chivo provoca uma mudança radical em sua vida.
A partir de um compêndio de vinhetas sobre assassinos de aluguel, assaltantes desesperados, jornalistas sem escrúpulos, ex-guerrilheiros e mães adolescentes, Iñarritu constrói impiedoso retrato sobre o estado das coisas numa sociedade dominada por máfias, traições entrecruzadas e a absurda gratuidade da violência, na maior, mais populosa e mais caótica cidade do mundo. O olhar do diretor privilegia com frequência o enfoque documental do roteiro complexo mas brilhante de Guillermo Arriaga. Estão ali os rapinantes humanos que se nutrem de despojos alheios, uma escória social que sobrevive em meio à miséria econômica. Nesse sentido, Amores Brutos é o filme sobre o destino e a impossibilidade da América Latina, sobre uma realidade terceiro-mundista que golpeia e ao mesmo tempo dói. E como dói.
Amores Perros, a um só tempo magnífica expressão de cinema clássico e contemporâneo, é obra original e formalmente audaciosa cujas imagens permanecem longo tempo na retina e na memória do espectador. Um filme que deve perdurar como símbolo de uma sociedade violenta, um trabalho surpreendente em mais de um sentido, marcando um possível caminho, um modelo artístico e comercial para o novo cinema latino-americano.


