Luiz Carlos Merten
Agência Estado
Pode ser que o autor exagere ao afirmar que o culto à celebridade se tornou a ideologia dominante neste fim de milênio. Mas não há dúvida de que Neal Gabler consegue provar sua tese: o entretenimento invadiu e conquistou a realidade. A própria vida transformou-se em espetáculo, sob o impacto do cinema e da TV. É o que ele demonstra em ‘‘Vida - O Filme’’ (Companhia das Letras, 280 págs.
R$ 28,50). É um livro-ensaio que une o gosto acadêmico pelo rigor da pesquisa e levantamento de dados à atração mundana pela fofoca. - Zza Zsa Gabor, Madonna e Elizabeth Taylor são algumas das protagonistas, com O. J. Simpson, o ex-presidente Ronald Reagan e o atual, Bill Clinton. Sim, Monica Lewinsky participa da trama. O episódio do charuto na Casa Branca não poderia faltar num livro que discute a atração do público pelo escândalo. Faz pouco mais de 30 anos que Andy Warhol afirmou, nos anos 60, que no futuro todo mundo teria direito a 15 minutos de celebridade. Há gente fazendo de tudo para ampliar seus 15 minutos. Gabler conta uma história exemplar.
Antes de decidir-se pelo assassinato do beatle John Lennon, Mark David Chapman já tinha pensado em matar o animador de TV Johnny Carson, Jacqueline Kennedy Onassis, o ator George C. Scott, Elizabeth Taylor e outro beatle, Paul McCartney. Ao chegar ao Dakota, ainda não havia decidido se pediria a Lennon um autógrafo ou dispararia sua pistola. Se tivesse pedido um autógrafo, teria permanecido anônimo. Disparando e matando seu ídolo, cavou seu lugar na história. Entrou para o que Gabler chama de ‘‘vida, o filme’’.
Não é de hoje que Gabler, colaborador do ‘‘New York Times’’ e do ‘‘Los Angeles Times’’ em seus suplementos de cultura, se interessa pelas celebridades como encarnações modernas do mito. Escreveu ‘‘Winchell: Gossip, Power and the Culture of Celebrity’’ (que deu origem ao telefilme de Paul Mazursky sobre o célebre colunista), mas sua fama ele a deve principalmente a ‘‘An Empire of Their Own: How the Jews Invented Hollywood’’, que ganhou o prêmio ‘‘Los Angeles Times Book’’ na categoria de pesquisa histórica. A cultura de massas é o assunto preferido de Gabler.
Ele, que já demonstrou que Hollywood foi (ou é) uma invenção dos judeus, agora mostra como a indústria do entretenimento se instalou na América e criou o que chama de ideologia da celebridade. Gabler vai às origens. Lembra a influência do protestantismo evangélico na formação do caráter americano, com seu cultos baseados na teatralidade e na catarse. Vasculha episódios passados que ajudem a provar sua tese. Sua pesquisa recua até o começo do século passado, lembrando o processo eleitoral quando John Quincy Adams e Andrew Jackson disputavam a presidência dos Estados Unidos. Adams pertencia à nata de Massachussets. Jackson, o ríspido herói do Tennessee, vencera a batalha de New Orleans, na guerra de 1812.
Um sabia escrever, o outro, combater. A América em peso voltou-se para Jackson e Gabler situa o episódio como importante por antecipar uma tendência. O populacho podia identificar-se com Jackson, até porque era considerado um herói salvador da pátria; mais difícil era identificar-se com um intelectual de formação aristocrática. Trinta anos mais tarde, veio a disputa entre dois atores: William Charles Macready e Edwin Forrest. Dois intérpretes shakespearianos. O primeiro seguia a tradição clássica inglesa, o segundo tratava de americanizá-la para tornar Shakespeare palatável para o espectador médio (naquela época, analfabeto) de seu país.
Você é capaz de não acreditar, e é uma pena que Hollywood nunca tenha considerado o caso digno de ser ficcionalizado, mas ocorriam verdadeiras batalhas campais por causa desses dois na Nova York do século passado.
A pedra de toque da teoria de Gabler é que os Estados Unidos não criaram apenas uma democracia cultural e política - criaram também uma democracia do desejo, que transformou o país inteiro em consumidor de bens. Gabler observa que houve uma revolução gráfica na virada do século quando a imprensa, sob o impacto do desenvolvimento da fotografia, se tornou cada vez mais ilustrada. Isso coincidiu com o advento do cinema. Instalou-se o culto da imagem, que produziu astros e estrelas capazes de magnetizar o público.
Foi só o início. Com a transformação da notícia em espetáculo neste fim de século, o efeito secundário é que quase tudo foi forçado a se transformar em entretenimento para chamar a atenção da mídia. Chapman matou para ser famoso. Não foi o único. O leilão com os instrumentos de tortura usados por um serial killer atraiu tanta atenção e rendeu quase tanto quanto o de objetos que pertenceram a Jacqueline Kennedy, uma das mulheres mais influentes e poderosas do século. O livro enumera uma longa lista de eventos para provar o quanto a sociedade atual é invasiva e até perversa.
Não faz muito tempo, há 40 anos, a palavra celebridade não era muito usada. As pessoas que apareciam em capas de jornais e revistas eram bem-sucedidas ou famosas. A celebridade veio preencher o vazio do mito na sociedade contemporânea. O estudioso Joseph Campbell explica que sempre foi função primordial da mitologia e dos rituais fornecer os símbolos que levam o espírito humano adiante, em oposição àquelas outras constantes fantasias humanas. Embora o conceito seja desenvolvido a partir do mito clássico, pode aplicar-se à celebridade moderna.
Hoje em dia, para ser uma celebridade, a pessoa não precisa mais possuir um valor em si. Madonna sempre foi a primeira a admitir que não é a melhor cantora, dançarina ou atriz e, mesmo assim, virou o mito que é, construindo uma persona para ela mesma e sabendo como manipulá-la na mídia e aos olhos do público. Gabler busca um exemplo emblemático dos anos 50. Zsa Zsa Gabor, de quem pouca gente deve lembrar-se hoje em dia, também não sabia cantar, dançar nem representar e virou uma celebridade da época, consolidada quando começou a apresentar um programa de conselhos na televisão. Elizabeth Taylor ampliou o quadro ao transformar suas interpretações na tela em coisas secundárias em relação à sua interpretação na vida real, permeada de sexo, drogas e escândalos. Isso não acontecia só com as personalidades do show business. Donald Trump, que Gabler define como magnata de segundo escalão da indústria imobiliária, virou assunto quase obrigatório na mídia dos anos 80. Ele compreendeu que, numa sociedade movida a entretenimento, a celebridade é uma das ferramentas mais eficazes da arte de vender e, consequentemente, a tarefa de um empresário não se limita a gerenciar os ativos - é preciso gerenciar também a imagem.
O sucesso de Trump foi tão grande que sua ex-mulher, Ivana, tornou-se ela própria uma celebridade com dimensão própria. De subsidiária, fundou a própria indústria e terminou separando-se de Trump num processo ruidoso que inclui muita lavação de roupa suja em público.
Por que as pessoas se interessam tanto pela vida íntima de seus ídolos? Por que a revelação de detalhes sórdidos da vida de personalidades vende tanto? Gabler chega a afirmar que alguma revelação horrenda passou a ser pré-requisito para a celebridade. Revistas como ‘‘People’’ (nos Estados Unidos), ‘‘Hola!’’ (na Espanha) e ‘‘Caras’’ (no Brasil) satisfazem esse gosto do público pelo gossip. A reflexão de Gabler é que a sociedade atual simplesmente não é. O homem moderno vive da falsidade de máscaras e aparências. Aonde isso vai chegar ele não diz, mas no fim do livro o leitor é capaz de inverter Andy Warhol e pedir a volta ao anonimato. Quinze minutos de obscuridade, por favor.
Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna ‘‘Leiturinha’’ de Marcos Losnak.No livro ‘‘Vida - O Filme’’, o escritor Neal Gabler discute a cultura de massas a partir do culto às celebridades
ReproduçõesZsa Gabor, Elizabeth Taylor e Madonna são citadas no livro de Neal Gabler: escandâlos na vida real das três celebridades já renderam tanto espaço na mídia quanto suas atuações artísticas