Quando a platéia vira elenco
Existe algo mais triste que a separação de dois irmãos gêmeos, distanciados um do outro pelo imponderável da morte? Pois é. Mas não é isso o que acontece em Saudades do Sião, peça inédita de Flávio de Souza, que terá estréia nacional em Curitiba, dia 7 de janeiro, no Teatro José Maria Santos. O elenco é formado por Wellington e Marino Júnior, sob direção de Cesar Almeida.
A comédia conta as aventuras de dois gêmeos - um vivo, o outro morto -, dentro da fina ótica de Flávio, que constrói situações de mestre. A platéia nunca sabe a divisão entre o real e o imaginário desempenhado pelos atores. É uma brincadeira que faz do público o ator mais importante da montagem.
Quem diz isso é o produtor Isydoro Diniz, que por quase 20 anos dedicou-se ao teatro infantil e agora muda de rumo. Fechou-se um ciclo. Não adianta continuar, porque corria o risco de ficar escravo da situação. Tenho que procurar outras coisas, novos desafios.
Apaixonado pelo texto de Flávio de Souza, desde a primeira leitura feita em 1997, no Teatro da Caixa, Diniz escolheu-o para marcar a ruptura. Quando soube de sua intenção, o autor assustou-se. Ele não via condições palpáveis da peça ser levada ao palco, diverte-se o produtor.
O diretor Cesar Almeida conduziu as cenas com leveza, como pede o texto, nessa grande brincadeira. Saudades do Sião coloca em cena um ator preparando um espetáculo, ajudado pelo irmão. Seria como que um último ensaio, mas nessa trama de entra e sai da pele do personagem muita coisa acontece. Quem é quem nesse jogo, qual máscara está sendo usada?
Esse jogo proposto pelo autor tem semelhanças com Repetition, que ele encenou em Curitiba com Xuxa Lopes e Elias Andreatto. Mas agora Souza propõe à platéia, abertamente, que participe do espetáculo. Um personagem chega a perguntar à assistência o que ela está fazendo ali? Quer ser estrela? E o auditório transforma-se no terceiro personagem.
Saudades do Sião teve algumas apresentações a portas fechadas para convidados, no Teatro José Maria Santos. A receptividade foi muito bacana; acho que há uma falta nestes dias de comédias que não sejam óbvias. Eu não gosto de coisas óbvias. Flávio de Souza escreve com graça e sutileza; espero que seja sucesso, augura Diniz.Carlos MartinsO diretor César Almeida e os atores Mariano Júnior e Wellington, em Saudades do SiãoZeca Corrêa Leite





