Em conversa com o crítico francês Michel Rebichon, da revista Studio, à saída da sessão para a imprensa de ‘‘A Dama de Honra’’, no Festival de Veneza de 2004, ouvi dele que o diretor Claude Chabrol faz sempre o mesmo filme. Perguntei se a observação era uma crítica, espécie de acerto de contas doméstico. Ele então argumentou que o propósito de Chabrol era cada vez mais depurar o olhar para alcançar a máxima precisão no traço, a maior concisão na construção de suas histórias e a mais maliciosa e fina sutileza para obter incômoda e provocadora ambigüidade. Nada mais pertinente. O filme, um fascinante convite à reflexão acerca do mal que se esconde sob a aparência mais corriqueira e cotidiana, estréia hoje na cidade (veja a programação de cinema na página 2).
  Aos 76 anos, Claude Chabrol, um dos fundadores e ex-crítico da mitológica revista Cahiers du Cinema, realizou até hoje 67 filmes. Participou como ator em 9, escreveu 49 roteiros, ganhou fama como o Hitchcock francês, etc, etc. Mas não são somente números, ou rótulos, mas a continuada e original maestria ao longo de quase 50 anos na ativa. Entre sua filmografia, elejo quatro títulos capitais: ‘‘As Corças’’ (67), ‘‘O Açougueiro’’ (69), ‘‘Madame Bovary’’ (91) e ‘‘Mulheres Diabólicas’’ (95). Em comum, um método narrativo que não se apóia na trama - geralmente freqüentada por crimes -, mas a utiliza como pretexto; menos ênfase no suspense e total entrega ao desenho dos personagens, à sua psicologia, à sua vida interior e ao retrato do entorno familiar e social. ‘‘A Dama de Honra’’ não é exceção.
  Este entorno familiar e social não é aquele do film noir, mas da burguesia, alta ou média. Aqui temos Philippe (Benoit Magimel, ator da moda na França) e Senta (Laura Smet, trazendo o confiável DNA da mãe Nathalie Baye). São dois jovens que vivem um amor louco. Ele tem um trabalho promissor e uma existência tranqüila (?) no âmbito da família, com mãe e duas irmãs. No casamento de uma delas surge a casual, misteriosa e imprevisível dama de honra, típica criação da ironia e da destreza manipuladora do cineasta. Philippe se apaixona desordenadamente pela garota, e sua vida vai dar uma guinada radical.
  O que interessa de fato não é a evolução, digamos, criminal do argumento, mas o que se oculta sob bons modos e gostos refinados de vidas rotineiras na aparência, mas capazes de camuflar segredos inconfessáveis, alguns grotescos, outros mais explicitamente sórdidos.
  A escalada passional vai de uma romântica fixação sexual a inesperados desdobramentos criminais - o roteiro, baseado em romance de Ruth Rendell, teve seu final alterado por Chabrol com expresso consentimento da escritora.
  O diretor alimenta a intriga e a evolução dos personagens principalmente com um arsenal de observações, pequenos detalhes eloqüentes, pistas que só enriquecem o olhar do espectador atento. O filme é seco, depurado, compacto, perturbador. E de maneira nenhuma recomendável àqueles que entendem o thriller apenas como sucessão de barulhentas reviravoltas.

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