Quando a literatura abana o rabo
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de maio de 2002
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 
Existem inúmeras maneiras para se falar de determinado assunto. Quando o assunto é cachorro, por exemplo, o animal que o homem encarregou-se de humanizar, um verdadeiro universo de signos pode ser vislumbrado.
O escritor francês Roger Grenier encontrou uma interessante maneira para falar de cachorros em Da Dificuldade de Ser Cão. Utilizou, para isso, uma abordagem literária dos sentimentos caninos que acabam refletindo os próprios sentimentos humanos.
Lançado pela Companhia das Letras, o livro reúne 44 microensaios permeados com depoimentos pessoais. Isso porque Grenier é um amante dos cães e dedica vários textos ao falecido Ulisses, seu ex-companheiro de estimação. Mas o grande teor da obra está em apresentar como os cachorros estão inseridos na literatura universal.
Da Dificuldade de Ser Cão revela a presença dos cães nos escritos de Franz Kafka, Jean-Paul Sartre, Charles Baudelaire, Alberto Camus, Thomas Man, André Gide, Jack London e muitos outros. Paralelamente, apresenta a convivência de vários escritores com seus totós.
Um dos episódios, por exemplo, mostra que nos últimos dias de vida de Sigmund Freud, sua cachorrinha não conseguia permanecer perto dele. Devido o avanço do câncer do dono, a pequena Lun permanecia escondida pelos cantos da casa. Muito triste, o pai da psicanálise via, no comportamentos de seu animal, a proximidade da morte. E que outro mensageiro podia melhor significar que ele já não fazia parte da vida? assinala Roger Grenier.
O autor abre o livro com a história de Argos, o cachorro de Ulisses na Odisséia de Homero. Quando Ulisses, depois de sua longa jornada, finalmente volta à sua ilha Ítaca, ninguém o reconhece. O único digno de tal feito foi seu cão, velho e fraco. O rei, ao ver Argos agitando a cauda para ele, virou o rosto e derramou uma lágrima. Após tantas provações, o único ser a arrancar-lhe uma lágrima havia sido um velho cão.
Com grande despretensão, Da Dificuldade de Ser Cão fez um livro ao mesmo tempo literário e uma ode aos entes caninos. O tom de suas palavras é de uma simplicidade digna de orelhas caídas. Os amantes dos cães, bem como os amantes dos livros, terão sensação agradáveis: se sentirão em casa, sentado num sofá, com um amigo deitado ao lado.
Serviço:
Da Dificuldade de Ser Cão de Roger Grenier, Editora Companhia das Letras, tradução de Lucia Maria Goulart Jahn, 144 páginas, R$ 23,00.
As pessoas que gostam de cachorros, escreveu Collete Audry, encontram um asilo secreto e ainda mais seguro que o coração de sua mãe. Existe algum tipo de masoquismo nesse tipo de amor. E outras vezes sadismo, a possibilidade de se ter em seu poder um ser indefeso. Os algozes de animais sabem que sua vítima sempre irá amá-los. Como o velho Salamano, do Estrangeiro, de Camus. Por oito anos, Salamano insulta e espanca seu cachorro, mas eles formam um casal inseparável e terminam mesmo por se parecerem.
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Todas as noites, voltando do trabalho, passeávamos pelo bulevar Saint-Germain, meu cachorro e eu. Seguidamente, um senhor que permanecia no terraço de um café, ou que ali chegava para tomar um aperitivo, nos parava e me pedia licença para acariciar o cachorro. O que eu permitia de boa vontade. Ulisses nunca cansava de ser admirado, afagado, como se tivesse uma carência afetiva eterna. Dentre os sentimentos humanos que esse cão havia adquirido, o primeiro era o narcisismo.
(Fragmentos de Da Dificuldade de Ser Cão)


