Dizem que há três maneiras básicas de se ler um romance. A primeira maneira seria a primeira leitura e todo o impacto inicial que ela é capaz de provocar. A segunda seria a segunda leitura, aquela que complementa a primeira e acrescenta novos detalhes e sensações não percebidos. A terceira leitura significa a paixão desenfreada do leitor pela história - neste ponto, tudo torna-se possível.
A primeira vez que li ‘‘As Aventuras de Tom Sawyer’’, ainda era um garoto. Lembro-me que era um livro em formato de bolso, papel amarelado, cheio de orelhas e um pouco ensebado. Devia ter passado pelas mãos de vários garotos nem um pouco asseados. Não havia nenhuma ilustração, apenas letras e mais letras. Letras minúsculas. A leitura não partiu de minha livre espontânea vontade, foi por imposição de uma professora como trabalho escolar.
Depois das primeiras páginas já estava fisgado, e a obrigação se transformou em aventura. Cheguei até a pensar que a professora não era um megera e nem tão sádica assim. Tom Sawyer era um cara legal, trambiqueiro e aventureiro que correspondia aos anseios da imaginação de muitos outros garotos. Tom era capaz de todas as artimanhas possíveis para faltar às aulas para tomar banho de rio.
De autoria do escritor norte-americano Mark Twain (1835-1910), ‘‘As Aventuras de Tom Sawyer’’ foi publicado originalmente em 1876, desde então tornou-se uma clássico da literatura juvenil. Narrando as aventuras de um garoto (no início da adolescência) numa pequena cidade do interior, construir um imaginário que encontrava eco no imaginário de cada leitor.
A segunda vez que li ‘‘As Aventura de Tom Sawyer’’, há alguns dias, já não era nenhum garoto, era um homem a caminho da velhice. Por livre e espontânea vontade abri a edição da obra de Mark Twain que a Editora Melhoramentos lançou recentemente. Trata-se de um livro muito diferente daquele amarelado e cheio de orelhas. A edição é toda ilustrada, com ampla iconografia de época, colorido, comentários comparando ficção e realidade, papel de qualidade e outros detalhes.
O velho e bom Tom Sawyer continua o mesmo, mas meus olhos deram mais atenção ao seu fiel amigo Huckleberry Finn. Se Tom é o grande herói do romance, a figura do companheiro de aventuras Huck é mais sedutora. Tudo indica que o próprio Twain apontava nesse sentido ao publicar em 1884 ‘‘As Aventuras de Huckleberry Finn’’, considerado sua obra-prima. Pode-se dizer que do mesmo modo que Tom Sawyer era o alter ego do escritor, Huck Finn era seu verdadeiro ídolo.
Em ‘‘As Aventuras de Tom Sawyer’’ Huck Fin é descrito como tudo aquilo que os outros garotos do povoado desejavam ser. As mães o achavam preguiçoso, sem educação, vulgar e mau, mas seus filhos devotavam-lhe um verdadeira adoração: ‘‘Huckleberry andava sempre mau vestido, com roupas herdadas de adultos, rasgadas e remendadas (...) Huckleberry não sofria restrições. Andava por onde lhe dava na telha. Quando fazia tempo bom, dormia na soleira das portas, e em galpões quando chovia ou estava frio demais. Ninguém o obrigava a frequentar a escola ou a igreja, ou a obedecer fosse o que fosse. Sempre que queria, ia nadar, pescar e gastava o tempo que desejasse nessas diversões. Ninguém o impedia de brigar nem de ficar fora de casa até altas horas. Era o primeiro a deixar de usar sapatos na primavera e o último a calçá-los no outono. Ninguém o forçava a tomar banho nem a por roupas limpas. Podia dizer palavrões à vontade. Em suma, tudo que faz a vida preciosa ele possuía.’’

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