ReproduçãoOtto Lara Resende: paranóico da perfeição, reescrevia seus textos incessantementeO ambiente bucólico e pacato do interior de Minas Gerais é virado ao avesso no peito dos personagens dos contos de Otto Lara Resende (1922 - 1992) que integram o livro ‘‘A Boca do Inferno’’. Publicado originalmente em 1957, a obra acaba de ser reeditada, depois de 41 anos fora das livrarias, pela Editora Companhia das Letras.
Escritos numa linguagem límpida, os sete contos do volume possuem uma admirável unidade. Todos são narrados por meninos ou meninas que precisam enfrentar situações externas e adversas com uma tempestade dentro de si. Garotos e garotas que, em momentos únicos, precisam abandonar a infância e cair no lado escuro da vida real e adulta. Situações que funcionam como uma espécie de ritual de passagem onde o sofrimento é componente primordial. São textos, de certa forma, perturbadores.
Para se ter uma idéia deste universo, basta tomar como referência a narrativa que abre e a que fecha ‘‘A Boca do Inferno’’. No primeiro conto, ‘‘Filho de Padre’’, um menino órfão é criado pelo padre de uma pequena cidade do interior de Minas. Cansado das surras diárias que o pároco lhe aplica, acaba por, num impulso, matá-lo para conquistar a liberdade. No último conto do volume, ‘‘O Moinho’’, um garoto, após a morte da mãe, é levado para ser criado pelo padrinho. A vida torna-se um inferno. É condenado a trabalhar de sol a sol, atormentado pelo chicote. Sua única saída é a fuga, mas frente à possibilidade de ser encontrado e voltar para a fazenda do padrinho, opta pelo suicídio.
Para sair da opressiva realidade que os sufoca, arrancados dos braços da infância, os meninos precisam matar ou morrer para provar o gosto da paz. Tudo ambientado no interior de Minas da primeira metade do século.
Diz a lenda que logo depois do livro ser publicado, em 1957, Lara Resende percorreu as livrarias do Rio de Janeiro comprando todos os exemplares de ‘‘A Boca do Inferno’’ que encontrava. O motivo era simples, achava que o livro possuía alguns erros, poderia ser melhorado.
Como um verdadeiro paranóico da perfeição, reescrevia seus textos incessantemente. Mesmo depois de publicados, continuava a corrigi-los, continuava a reescrevê-los. O resultado deste perfeccionismo foi que poucos de seus livros ganhavam reedições, pois o escritor ia retocando-os, retocando-os, sem nunca chegar ao texto definitivo.
Neste aspecto, Otto Lara Resende comungava da obsessão de outro mineiro, o contista Murilo Rubião (1916 - 1991). Ambos seguiam o princípio básico de que um escritor não precisa escrever dezenas e dezenas de obras e histórias, mas sim criar obras e histórias bem escritas. A velha e infalível qualidade em lugar da quantidade.
Fora das livrarias há décadas, a bela literatura de Otto Lara começa lentamente a ver a luz do dia. Após sua morte, ocorrida em 28 de dezembro de 1992, sua obra começou a ser relançada - ele já não podia mais corrigir seus textos, não podia mais reescrever suas histórias. A Companhia das Letras já publicou o romance ‘‘O Braço Direito’’ (1963) e o volume de novelas ‘‘A Testemunha Silenciosa’’ (1962). Em 1991, o escritor curitibano Dalton Trevisan foi responsável pela organização da antologia de contos ‘‘O Elo Partido e Outras Histórias’’.
Entre as várias profissões em que atuou - advogado, professor ginasial, adido cultural - foi como jornalista que Lara Resende atuou com mais afinco. Afirmava que entrou para o jornalismo da mesma maneira como um cachorro entra numa igreja, porque encontrou a porta aberta. Na realidade, seu pai era um dos diretores do jornal ‘‘O Diário’’ de Belo Horizonte e começou a frequentar a redação na adolescência. Depois de passar por alguns periódicos mineiros, transferiu-se para o Rio de Janeiro trabalhando em ‘‘O Globo’’, ‘‘Última Hora’’, ‘‘Diário de Notícias’’ e ‘‘Correio da Manh㒒, foi diretor da revista ‘‘Manchete’’, do ‘‘Jornal do Brasil’’ e da Rede Globo. Nos últimos anos de vida, manteve uma coluna diária de crônicas no jornal ‘‘Folha de São Paulo’’. Estes textos - uma seleção deles - foram transformados em livro, publicado em 1993, sob título ‘‘Bom Dia Para Nascer’’.
• A Boca do Inferno - de Otto Lara Resende, Editora Companhia das Letras, 105 páginas, R$ 16,50/Livraria Rosa do Povo (fone: 043/321-5691).

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