A gravadora Kuarup, do Rio de Janeiro, bem ou mal sobrevive com seus discos de alta qualidade que se diferenciam do mar de banalidades despejadas pelas multinacionais. Agora mesmo está chegando ao mercado um lote de lançamentos interessantes, que obviamente estará disponível em poucas e boas lojas.
Mais fácil é entrar em contato direto com a empresa pelo telefone (21) 220-1623, fax (21) 220-0494 ou pelo e-mail kuarupñkuarup.com.br. No endereço www.kuarup.com.br pode-se obter o catálogo completo.
Uma das estrelas da fornada é o mais novo CD de Pena Branca, ‘‘Semente Caipira’’, o primeiro depois da morte do irmão Xavantinho, ocorrida ano passado. Cada nota do disco reflete a elegância do intérprete, e o repertório está dentro do estilo. Entre as 15 faixas constam os clássicos ‘‘Maringᒒ, de Joubert de Carvalho, e ‘‘As Mocinhas da Cidade’’, de Nhô Belarmino e Nhá Gabriela; ‘‘Correnteza’’, de Tom Jobim e Luiz Bonfá.
Oito músicas são inéditas, sendo que Pena Branca colocou três composições suas nesta lista: o arrasta-pé ‘‘Papo Furado’’, a toada chorosa ‘‘Casa Amarela’’ e a moda de viola ‘‘Rio Abaixo Vou Viver’’, em parceria com Murilo Antunes. Tem ainda ‘‘São Gonçalo do Rio Preto’’, com Tavinho Moura, ‘‘Aliança’’, de Juraildes da Cruz e Genésio Tocantins, ‘‘Espera Eu Chegar’’, de Kapenga Ventura e Guca; autores da divertida ‘‘A Banana Deu no P钒. O letrista Guca é ex-integrante do Língua de Trapo.
‘‘Semente Caipira’’ significa para Pena Branca ‘‘um novo começo, uma nova etapa’’. O disco estava programado para ser gravado no final do ano, mas ‘‘como o mano foi embora’’, os planos se alteraram. O disco, porém, é marcado pelo som leve, alegre. ‘‘Era um sonho de Xavantinho, eu e ele estávamos escolhendo o repertório. Acho que se eu parasse de cantar, iria sofrer muito, e talvez o meu irmão também. Acho que ele me ajudou na gravação, porque saiu tudo perfeito’’.
Renato Teixeira e Natan Marques são parceiros no disco ‘‘Alvorada Brasileira’’: Renato canta e Natan cuida dos instrumentos de cordas. O repertório foi estabelecido de comum acordo – haveria o resgate de músicas gravadas por Renato que passaram despercebidas do público, juntando-se algumas inéditas.
Mas o encontro também celebra 26 anos de amizade artística e pessoal. ‘‘Quando nos conhecemos eu começava a trabalhar com Elis Regina. Nessa época estava para fazer o ‘Falso Brilhante’, e participei da gravação de jingles com o Renato’’, explica Natan Marques.
Mesmo tendo atuado ao lado de artistas como Simone e Ivan Lins, entre outros medalhões, Natan nunca se afastou do amigo. Quando acertaram a gravação para a Kuarup ficou estabelecido que Renato apenas cantaria, e Natan cuidaria dos arranjos e execução dos instrumentos. Um ótimo negócio para o violonista que nem sempre é lembrado por esse lado, embora tenha escrito arranjos para Vânia Bastos e para a última gravação de Elis Regina, ‘‘Me Deixas Loucas’’.
‘‘Este é um disco que gosto bastante, onde mostro meu lado de arranjador’’, festeja Natan. Renato Teixeira, que se diz um compositor que faz músicas ‘‘para lavradores’’, comenta que ‘‘Alvorada Brasileira’’ ao mesmo tempo em que comemora os anos de amizade da dupla, possibilitou uma releitura de sua própria obra.
‘‘Piso firme no solo da tradição mas não me afasto de meu tempo, sou contemporâneo’’, diz o cantor e compositor mineiro Chico Lobo. Nada contra sua contemporaneidade, mas o CD que acaba de lançar pela Kuarup, ‘‘Reinado’’, é um mergulho nas raízes de sua terra. Aquilo que ele compõe – o disco tem uma única faixa que não é de sua autoria – é de uma mineirice ancestral surpreendente. Estudioso da música de sua terra, Chico Lobo argumenta que ‘‘por mais que eu seja pesquisador, sou também compositor. Crio em cima dessas referências’’.
Foi um ano de preparação para ter o disco pronto, mas o resultado foi o melhor possível. ‘‘Reinado’’ é impecável, trazendo dos ricos ermos mineiros as catiras, toadas, cantigas, canções de reisado e de congadas, modas de viola, emboladas e cocos. ‘‘Quis mostrar o reinado das violas que é importante para a cultura brasileira’’, explica o músico, com modéstia.
Uma curiosidade: ‘‘Rosa’’, de domínio público, é interpretada por Chico ao som de uma violinha meia-regra de 70 anos, batizada numa festa de São Gonçalo. Como convidados tem Pena Branca que terça vozes com o cantor; o ator Jackson Antunes que participa com um recitado, os violeiros da novíssima geração, Cláudio Araújo, Dimas Soares, Noel Andrade, Rodrigo Delage, o gaúcho Renato Borghetti, que entra com gaita-ponto.
Nesta leva de lançamentos, tem uma reedição – o ‘‘Disco da Moda’’, de Rolando Boldrin, que em 1993 chegou ao mercado no formato de LP e abocanhou o Prêmio Sharp daquele ano. A Kuarup relança com nova masterização. ‘‘É um trabalho bem purinho, só de moda, tem até a ‘Moda da Revolução’, de Cornélio Pires’’, afirma o artista.
Outras são a ‘‘Moda do Lenço’’, ‘‘Moda da Mula Preta’’, ‘‘Marvada Pinga’’, ‘‘Moda do Corinthiano’’, e por aí vai. São nove ao todo. Graças à tecnologia o artista faz dueto consigo mesmo, criando assim a sonoridade das duplas caipiras tradicionais. No disco ele conta a passagem ocorrida durante uma viagem. ‘‘Um dia passando por um bar de beira de estrada, fui tomar um cafezinho, o moço do balcão me reconhecendo perguntou assim: ‘O senhor não é daquela dupla Rolando & Boldrin?’’’
Para o intérprete e ator – aos 22 anos bateu nas portas da TV Tupi para tentar a carreira de cantor e foi contratado como ator –, este trabalho tem uma importância capital porque há todo um resgate da história de como se cantava a música caipira tradicional. Que, aliás, nada tem a ver com o que se ouve por aí. ‘‘O que a rádio e a televisão mostram é a música sertaneja, que é de alto consumo’’. Segundo Boldrin as duplas trocaram a designação ‘‘caipira’’ por ‘‘sertaneja’’ pelo complexo que têm de serem chamados de caipiras.

mockup