Qualidade acima de tudo
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de fevereiro de 2003
Beatriz Coelho Silva<br> Agência Estado 
O show que o compositor Marcos Valle e o guitarrista Victor Biglione fizeram em abril de 2000, em Montreal, para comemorar os 500 anos do Descobrimento, chega em disco ao Brasil. No encontro, em que os dois se acompanharam de músicos canadenses, Valle revisita seu repertório de clássicos, que não gravava desde os anos 60 e 70, mas que começaram a fazer sucesso entre o público antenado da Europa e do Japão.
Por isso,''Live in Montreal'' sai aqui pela Rob Digital, precedido do lançamento no exterior. Os dois se conhecem há muitas décadas, quando o adolescente Biglione começava a tocar violão e Valle era consagrado bossa-novista. Só no ano passado começaram a tocar juntos, quase informalmente, em fins de semana que passavam em Mauá, na serra fluminense. ''Quando me convidaram para Montreal, onde vou há muitos anos para festivais, chamei o Marcos, porque há um ótimo público para música brasileira lá'', conta Biglione. ''O show foi legal porque os canadenses conheceram as composições e também o virtuosismo de dois músicos brasileiros.''
Valle conta que o concerto foi gravado sem intenção de virar disco, mas acabou sendo convencido por Biglione. ''Os músicos canadenses, especialmente o saxofonista Jean Pierre Zanella, deram conta do recado, trazendo um sotaque diferente para a minha música e às de outros compositores'', explica. ''O trabalho aqui foi só aumentar o brilho e aprimorar os timbres dos instrumentos, quase não houve o que corrigir. Foi bom também regravar algumas músicas antigas, que venho tocando em shows, mas não registro há muito tempo. Nos últimos anos, quase só tenho tocado composições novas.''
Os grandes hits de Marcos Valle, como ''Preciso Aprender a Ser Só'', ''Samba de Verão'', ''Terra de Ninguém'', ''Viola Enluarada'', ''Mustang Cor de Sangue'', ''Gente'' e ''Os Grilos'', estão no disco em arranjos que soam bem mais internacionais que os originais. ''Não gosto de tocar a minha música do jeito antigo, porque fica monótono. Além disso, estou sempre aberto a novidades'', confessa Valle. E Biglione acrescenta: ''É importante que ele regrave esses standards, porque todo mundo os conhece, mas muita gente nem sabe que são de Marcos e Paulo Sérgio Valle. São músicas que fazem parte da nossa história.''
Nessa linha, Biglione incluiu também no show e no disco clássicos como ''Manhã de Carnaval'' (de Luiz Bonfá e Antônio Maria), ''Frevo'' (de Egberto Gismonti) e ''Fé Cega, Faca Amolada'' (de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), que havia gravado anteriormente, além de uma única francesa, ''What Are You'' (de Michel Legrand). ''Foi legal fazê-las junto com o Marcos Valle e também usar o violão de aço para voltar à forma brasileira de tocar, na tradição de Dilermando Reis e Garoto'', conta Biglione. ''Depois da bossa nova, quando os violonistas aderiram às cordas de náilon, essa sonoridade ficou um pouco esquecida.''
O show seguirá o mesmo esquema do disco e terá a participação da cantora Patrícia Alvi, da banda de Marcos Valle, que tem a tarefa de substituir cantores fundamentais das gravações originais. É ela que terça vozes em ''Terra de Ninguém'' (no lugar de Elis Regina) e ''Viola Enluarada'' (em vez de Milton Nascimento) e se sai a contento.
Biglione está tão entusiasmado que quer sair pelo Brasil fazendo shows de lançamento, mas Valle vai depender de sua agenda de concertos para promover ''Scape'', seu disco com músicas inéditas, lançado pela Trama. ''Uma coisa vai ficar na dependência da outra, porque estou interessado em que o público conheça também o que estou fazendo de novo'', justifica Marcos Valle.


