Quem foi criança ou jovem nos anos 80 já esnobou com uma melissinha que vinha com pochetinha...É fácil identificar os sobreviventes daquela geração: eles ainda tem o hábito de usar a gíria ''pega leve''. E no entanto, foram eles que ajudaram a escrever um dos últimos episódios da contracultura. Enquanto os saudosistas comemoram 30 anos do legado oitentista, os jovens da primeira década do século 21 convivem com o dilema de ter herdado um mundo que não tem lugar para esses movimentos.
Faz 30 anos que a new wave, os yuppies, as meninas de melissinhas e ombreiras, rapazes de mochilas e carteiras emborrachadas que se divertiam com Atari e davam rolê de mobilete, sossegaram o facho. Hoje eles são pais, mães e até avós que acompanham as manifestações juvenis, como aponta o sociólogo e historiador londrinense César Camargo.
Autor de livros como ''Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80'' (São Paulo: Unesp, 2008), Camargo afirma que não existe mais espaço para a contracultura numa sociedade que se apropriou até do conceito de cidadania.
A opinião de Camargo pode parecer pessimista, mas bandas do indie rock, como o The National, admirada por Barack Obama, não negam essa atmosfera de desilusões, incertezas e insegurança que deu o pontapé inicial no século 21.
Na atual sociedade consumista, o idealismo romântico desapareceu. ''A nossa moral vive num fio-dental. Não dá para prever que tipo de rebeldia os jovens de hoje vão produzir'', avalia Camargo.
Ao contrário, o que movia os jovens até os anos 80 era a possibilidade de reconstruir o mundo, pensá-lo de maneira diferente do instituído.
Para os economistas brasileiros, os anos 80 são considerados a década perdida, mas a cultura que produziu fenômenos do pop, como Duran Duran, A-Ha, Michael Jackson, Prince, entre outros, também assistiu à pulverização da União Soviética e a queda do Muro de Berlim.
Trinta anos depois da irreverência da Blitz, Ultraje a Rigor e Cazuza refletirem o comportamento dos jovens, o sociólogo faz uma reflexão sobre o saldo de ter vivido os últimos anos de um movimento de contracultura.
Professor universitário, pai de cinco filhos, Camargo busca uma vida o mais natural possível. Evita remédios, é adepto da comida natural e não alimenta mais o sonho das comunidades alternativas.
''As possibilidades de descobertas são muitas, mas não é uma questão de discurso. É prática, implicando em mudar o seu estilo de vida'', conclui, curioso para ver o que a geração YouTube será capaz de fazer.

mockup