Qual a função dos brinquedos?
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segunda-feira, 19 de junho de 2017
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 

De tempos em tempos surge algum novo brinquedo que vira febre entre crianças e adolescentes. E, não raras as vezes, ideias antigas são relançadas com nova roupagem. O último brinquedo do momento é o fidget spinner ou hand spinner, uma peça (geralmente de plástico) com três pontas para ser girada entre os dedos conforme a energia impulsionada. Pode ser usada individualmente ou para competições em grupo. O preço baixo, não mais que R$ 10, atrai um número ainda maior de crianças que, nas ruas e nas escolas, não param de manusear o brinquedo. Se pais e professores dividem-se entre os malefícios e benefícios ao invento, esta nova onda suscita discussões sobre a importância do brincar e como brincar.
Desde que apareceu, o fidget spinner tem sido anunciado como um brinquedo que auxilia crianças inquietas ou com dificuldade de concentração, pois seu uso agiria na liberação de energia nervosa com propriedades terapêuticas e antiestresse. Apesar de não haver um consenso, sobretudo por não haver evidências científicas sobre ele, o uso de brinquedos chamados pedagógicos têm ganhado destaque na infância. "Geralmente, a este tipo de brinquedo, atribui-se um valor educativo, em que há a intenção de estimular e exercitar a aprendizagem de habilidades sociais, cognitivas, afetivas e psicomotoras", resume a pedagoga Raquel Maria Biral Faconti, Mestre em Educação e Especialista em Psicopedagogia, responsável pela análise de jogos e brinquedos da Loja Ciranda Virtual.
Mas qual a diferença entre os brinquedos? Segundo ela, alguns autores indicam que para a criança não há distinção entre brinquedos pedagógicos e de lazer. "Para criança, brinquedo é brinquedo. Quando a criança se envolve com o brincar pode atribuir outros significados, por meio do simbólico e da imaginação, àquele objeto com o qual está interagindo. Por outro lado, para outros autores, a diferença de brinquedos pedagógicos e de lazer, de uma forma mais didática, está na proposta e na abordagem explícita e intencional de, o primeiro, provocar uma aprendizagem significativa."

De qualquer forma, ela explica que, para a classificação de brinquedos pedagógicos, recorre-se a estudos que versam o desenvolvimento de habilidades e funções necessárias ao desenvolvimento e à aprendizagem de repertórios que serão vivenciados na vida diária, social e acadêmica. "No Brasil, os brinquedos pedagógicos têm apresentado um salto de qualidade significativo, tanto do ponto de vista técnico e de segurança, quanto estético. Além destes fatores, há no mercado uma grande variedade de fabricantes e jogos que têm atendido a demanda de objetivos educacionais", completa.
Com diferentes indicações para diferentes situações, a psicopedagoga comenta que brinquedos pedagógicos devem ser utilizados, portanto, sempre que houver um propósito educacional. "No ambiente familiar, quando se tem como objetivo que a criança adquira repertórios importantes para seu desenvolvimento. Já no ambiente escolar quando é utilizado como recurso estratégico para a criança ou adolescente adquirir conhecimentos e habilidades sociais. Nos consultórios de psicologia, psicopedagogia, fonoaudiologia, entre outros recursos, pode ser utilizado como meio técnico e interventivo para facilitar o processo de terapia ou de reabilitação dos pacientes."
Seguindo esse princípio, as instituições de ensino têm dado mais valor ao uso de brinquedos e jogos. "Por meio deles, pode-se organizar uma aprendizagem mais desafiadora, promover uma melhor interação entre os educandos, desenvolver princípios colaborativos e evitar o rechaço natural a conhecimentos e tarefas tradicionais. Para isso, deve fundamentar-se o planejamento pedagógico e empregar os brinquedos e jogos como recursos didático-metodológicos. Especificamente sobre o spinner, há necessidade de mais observações e estudos sobre a possibilidade do mesmo ser considerado como um brinquedo pedagógico ou não", pontua Raquel.
Brincar para desenvolver

Enquanto a atenção do momento está fortemente voltada para o spinner, a terapeuta ocupacional Maria Madalena Santana ressalta que o olhar para importância do brincar na infância deve ser sempre conduzida para todas as crianças, inclusive àquelas que possuem alguma limitação ou deficiência física, intelectual, visual e auditiva. Por isso, dentre as várias vertentes de sua atuação, uma delas consiste em mostrar aos pais que não são necessários brinquedos, mas materiais e de um humano para instituir a brincadeira. "Nós quem temos que construir o interesse e essa atitude lúdica na criança para que vivencie as brincadeiras de acordo com as fases de seu desenvolvimento. Por isso, para cada etapa, ela precisa de materiais que estimulem essa brincadeira. Mas só esse material sozinho não acontece nada; vai depender o que se faz com ele. Temos de pensar: naquela idade, qual o tipo de brincadeira que ela está precisando?"
O brincar, segundo ela, precisa abrange os componentes motor, sensorial, afetivo, emocional e cognitivo. "Se eles estão alinhados, obviamente essa brincadeira acontece. Portanto, não importa o material, pode ser um caixa de sabão e acontece tudo. Depende do olhar do cuidador." De acordo com a terapeuta, o aprendizado de uma criança de até seis anos acontece por meio da brincadeira. "Cada época vem um brinquedo novo da moda. Então, se a criança fica restrita a apenas uma brincadeira, está apenas aprendendo um pedacinho desse universo e os outros todos estão esquecidos. O grande problema não é o brinquedo, mas o uso dentro de uma dinâmica familiar e como o adulto organiza aquele material para transformar a vida deles, uma brincadeira que cause interesse e prazer, senso de humor, espontaneidade. Senão, qualquer material pode se transformar num brinquedo ruim."
Nessa discussão, ela destaca que outros problemas têm aparecido em seu consultório. "O que mais chega até mim são crianças que não brincam por causa de suas deficiências. Mas temos observado que crianças sem qualquer deficiência que brincaram pouco e não utilizaram espaços abertos, não tiveram vivências que envolvessem o corpo e experiências sensoriais, e apresentam muitas dificuldades como de escrita, por exemplo. Outro agravante é o uso demasiado de jogos em computador e tecnologia em geral. Na hora da escrita, isso faz muita diferença porque os movimentos necessários para o desenvolvimento motor das mãos foram pouco realizados na primeira infância. É preciso ter espaço para esse brincar espontâneo, da movimentação e do faz de conta estar inserido na vida das crianças", finaliza. (M.T.)


