ReproduçãoPintura rupestre do sul do Piauí, datada de aproximadamente 50 mil anosENQUETE
QUAIS OS CAMINHOS DA
ARTE NO FIM DO MILÊNIO?
Jackeline Seglin
De Londrina















Os caminhos de uma civilização podem ser medidos pela arte. O século 20 termina como um período de conquistas em que a arte da representação foi sendo substituída, aos poucos, pela abstração, incorporando conceitos até então desconhecidos. No Brasil, a Semana de 22 abriu o século com ousadia. Os traços ‘‘caipiras’’ e as cores fortes de Tarsila do Amaral inauguraram nas artes plásticas nossa visão de modernidade que derivou para um conceito contemporâneo que estabelece a máxima de que ‘‘tudo é permitido’’.
Fechamos o século com uma arte instigante. Das telas bem comportadas às instalações que incorporam cheiro e estimulam o tato foi um longo caminho, que passa pelas outras artes. Da literatura ao teatro, da pintura à música, da fotografia ao cinema, o século termina revestido de todas as possibilidades. Desembarcando no terceiro milênio, quando a tecnologia encosta e incorpora-se às linguagens conhecidas, a humanidade abre-se para um admirável mundo novo. Hoje nenhuma limitação é imposta ao artista que só não pode perder o sentido sagrado da criação, que levou o homem a desenhar a vida nas cavernas.
Apesar da tecnologia, a arte é um atributo humano, demasiadamente humano. Com isto concorda a maioria dos artistas contatados pela Folha 2, que respondem sobre os caminhos da arte no fim do milênio e apostam na mística criativa de um território chamado futuro. (Célia Musilli)










Arquivo FolhaPaulo Betti, ator de teatro, cinema e TV
















‘‘O teatro não caminha para lugar nenhum. Quando digo isso, não estou desmerecendo-o. Pelo contrário, é uma forma de prestigiá-lo. Apesar de estarmos nesta transição de século e de milênio, o teatro está onde sempre esteve, porque esta é a arte que melhor entende a alma humana. Ele não caminha em direção à evolução tecnológica, mas no sentido de se tornar cada vez mais sagrado. Ele é ainda o lugar onde as pessoas mais se despem. O teatro independe de altas tecnologias: ele é feito da magia do ator no exercício de sua função, e o contato com o público, comungando esse momento. A emoção é instantânea, sai de você e atinge o outro no mesmo instante. Embora ele se faça de pouquíssimo aparato, sinto que está cada vez mais promissor. Enquanto o cinema, as artes plásticas, mesmo a televisão lançam mão dos recursos digitais, o teatro mantém sua essência. Ele tem as tábuas e a paixão’’.


Arquivo FolhaTiomkim, videomaker






‘‘Em toda sua história, o cinema evolui com a tecnologia. Agora, com os novos sistemas digitais, até a edição está deixando de ser feita na moviola. Os equipamentos tornaram-se ainda mais sofisticados, os efeitos especiais parecem que não têm limites. Mas tudo isso prende-se ao visual, ao espetáculo. Em sua essência o cinema continua trabalhando com as mesmas temáticas, que é a própria vida. Desde seu surgimento ele trabalha com os desejos e sentimentos do homem, suas conquistas e suas perdas. Esses elementos são eternos, eles não mudam. Particularmente acho que a tecnologia expulsa um pouco a vida. Acho que tem uma hora em que se cria um distanciamento da paixão que só o ser humano consegue empregar, com a sua química muito particular’’.







Arquivo FolhaEdilson Viriato, artista plástico








‘‘Eu acho que as pessoas estão tendo mais oportunidade e direito de poder ver a arte contemporânea. O acesso está mais fácil, especialmente pela difusão dos meios de comunicação. Mas também os livros de arte hoje estão mais acessíveis; há um intercâmbio mais intenso, as grandes exposições estão chegando ao Brasil. Sinto que há uma educação cultural em desenvolvimento no Brasil, e a consequência disso é que o País está dando uma virada. A arte brasileira deixou de ser coisa de terceiro mundo para se tornar universal. Nossos artistas estão sendo mais valorizados. As pessoas estão adquirindo obras de arte não só para decoração, mas como investimento. E assim como tivemos a fase da instalação, da fotografia, da gravura, acredito que dentro de poucos anos a pintura voltará a ser predominante nas artes plásticas. A próxima fase será da pintura’’.







Wanderlea, cantora



‘‘Tenho a sensação que todo mundo está necessitado de beleza. Como a televisão é o principal meio de divulgação, e está muito próxima da vida das pessoas, então o telespectador está farto do oportunismo, da vulgaridade. Estamos precisando da verdadeira expressão do amor. Acredito que esse milênio que está à porta de casa, trará de volta a essência em todos os sentidos, não só no terreno artístico, como no social, no político. A saturação mostra que as pessoas não estão mais tão inocentes; não se sujeitam mais ao oportunismo, engolindo goela abaixo as enganações da mídia. A mídia expõe apenas a violência e a corrupção, que realmente existe, mas não representa a totalidade dos brasileiros. O Brasil que não é mostrado, obrigatoriamente virá à tona. E com ele a nossa bela feição artística. Aí, logicamente, se inclui a música’’.



Tizuka Yamazaki, cineasta








‘‘Não posso falar pelo cinema nesta época de transição, porque é impossível. O cinema é muito amplo. Falo por meu trabalho, por onde vou caminhar. Está cada vez mais claro que vou plantar raízes no Paraná, por causa dos meus projetos, do Gaijin II, e também porque gosto fisicamente da cidade de Curitiba e do Paraná como um todo. Aqui as influências étnicas são muito fortes, todos vieram de algum lugar. Aqui todo mundo é gaijin. No Rio, onde moro há mais de 20 anos, me sinto um pouco estranha, e o mesmo aconteceu com Brasília, São Paulo. Ser cineasta é estar comprometida com muitos lugares. Neste momento estou em estado de gestação, num trabalho de engravidamento que pode durar anos’’.





Roberto de Regina, maestro





‘‘Não falo baseado em teorias, mas nas experiências. Então, neste fim de milênio temos em Curitiba um grupo como a Camerata Antíqua, que é o único a fazer vôos maiores, ousados. Os concertos que realizamos no último ano tocaram profundamente as pessoas. Numa dessas noites, deu para sentir que o aplauso do público, depois de duas horas de música, sem concessões, era a manifestação do povo. Os gritos, assovios não eram de quem frequenta salas de concerto, o que prova que a mensagem chega às pessoas, indistintamente. Parece que a grande música está adormecida, mas é um engano. Agora vem aí o Rock in Rio, que tomou ares de acontecimento do milênio. Não é. Movida por interesses, a mídia não dá devida importância à cultura, mas o concerto da Camerata, com aquele aplauso estrondoso, vindo do povo, mostra que a verdadeira arte continua a ser reconhecida por todos’’.






Arquivo FolhaRodrigo Garcia Lopes, poeta, jornalista e tradutor









‘‘O fim do século caracteriza o fim da inocência artística e da utopia de que a arte iria mudar o mundo. Há uma ênfase cada vez maior no aspecto comercial da arte. Arte e consumo. Isso caracteriza a arte nessa sociedade do espetáculo. Um dos efeitos disso é a eliminação de fronteiras entre a arte erudita e a popular. Essa diferenciação está mais tênue. Ao mesmo tempo, tem a banalização do que se entende por arte e por produto artístico, como se vê hoje no Brasil, principalmente na música. Outra característica é a busca pela identidade regional, nacional e humana dos objetos artísticos. Existe uma interrogação cada vez maior sobre o que é ser humano. Por último, a revisitação de estilos artísticos, que são atualizados, misturados e parodiados. Hoje estaríamos vivendo numa contemporaneidade total’’.



Marco Antonio de Almeida, pianista






‘‘Como estamos começando esse terceiro milênio, vou usar uma tríade para caracterizar a arte nessa virada. O valor de característica geral da arte, na minha opinião, tem a ver com o respeito ao passado e às tradições artísticas, com o vivenciar o presente, mas de jeito nenhum pode-se perder o olho no futuro. Acredito que a característica marcante é a soma dessas três coisas’’.







José Gonçalves, artista plástico











‘‘O que caracteriza a arte nessa virada de milênio é a criatividade aliada à tecnologia. Hoje em dia, o que importa é tentar ser criativo e fazer um trabalho que tenha multiplicidade de informações. Acho que a tecnologia ajuda muito na criatividade, na divulgação do trabalho. Na minha opinião, hoje não dá para pensar o trabalho de arte separado da tecnologia. A arte pode ser mil coisas. E trabalhando essa multiplicidade de informações com a tecnologia pode-se trabalhar o novo. A arte do novo milênio tem que ser uma coisa muito nova, interessante e bonita. Vai ter uma roupagem totalmente nova e vai estar interagindo mais com as pessoas. Hoje já existe este convívio, mas no futuro as pessoas vão perceber mais e vão interagir com a arte, o tempo todo’’.




Rosi Campos, atriz de teatro, TV e cinema











‘‘Acho legal as coisas que estão sendo organizadas pelas próprias comunidades. A formação de ONGs, movimentos e grupos comunitários. Estive na favela de Vigário Geral e conheci o afro-reggae. Super legal. A sociedade está desenvolvendo uma arte mais interessante do que a que gente está fazendo. A realidade da recuperação pela cultura é a única maneira de poder ajudar a resgatar essas pessoas, as quais a arte não atinge. Quantas vão ao teatro, ao cinema, lêem jornais? Quantas nunca foram assistir a um espetáculo no teatro? Nossa função é recuperar esse público. Claro que tudo passa pela educação e faz parte da formação cultural. Mas a arte sempre dá um jeito. É fundamental para a formação, é legal de ver, ouvir, descobrir. É sempre maravilhosa’’.






Eleonora Greca, bailarina











‘‘A gente sempre acha que não, mas é preciso uma mudança estética da arte. A dança terá que responder às pessoas aquilo que elas estão buscando; não sei exatamente como isso se dará, mas terá que se buscar no coletivo, colocar as pessoas dançando, não somente os bailarinos, os profissionais. Ao meu ver há uma inquietação mundial, e no caso do Paraná sinto que temos que ir atrás de nossas raízes, da nossa autenticidade. Nunca vi tanta vontade do ser humano acertar, de amar, como acontece agora. Então espero que o novo século venha com muita arte. O mundo tem que virar um grande picadeiro de circo, que é a arte maior de todas as artes. O circo é o que trazemos na nossa alma; é onde nos abandonamos, nos despimos e somos nós mesmos. O mundo deve se transformar nisso, para tornar possível a paz’’.

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