A figura dele é para ficar no eufemismo grotesca. Gordo, baixinho e dono de um inacreditável bigode pontiagudo, ''Reizinho'' seria ridicularizado em qualquer ambiente cujos anfitriões desconhecessem suas credenciais.
Criação do cartunista norte-americano Otto Soglow (1900-1975), ''Reizinho'' é o monarca de um país imaginário e um dos personagems mais carismáticos já publicados na história das tiras em quadrinhos. Durante quatro décadas, de 1934 a 1975, ele fez parte do cardápio matinal de milhares de leitores de jornais maravilhando-os com suas peripécias no Palácio.
Hoje relegado a verbete de enciclopédia, ''The Little King'' (título original) volta a rondar as bancas com o lançamento do livro ''O Reizinho Sua Majestade o Humor'', pela coleção Opera King da editora Opera Graphica. Com 100 páginas, a coletânea pinça do baú fases distintas de seu longo reinado, além de trazer artigos sobre o criador e a criatura incluindo um histórico de suas aparições em jornais e revistas do Brasil.
O.Soglow, como o autor assinava seus trabalhos, inventou o personagem no final de 1930 lançando-o nas páginas do prestigioso magazine The New Yorker, onde o herói apareceu primeiramente como uma vinheta isolada para depois ganhar página própria. A partir de 1934, as tiras do pequeno soberano passaram a sair simultaneamente em outras publicações, distribuídas pelo King Features Syndicate, comandado pelo magnata da imprensa William Randolph Hearst.
Desenhada com excepcional economia de traços, a série elevou-se ao status de clássico das HQs graças à qualidade mímica da narrativa visual. Simples mas ao mesmo tempo sofisticadas, as formas quase geométricas de sua arte tinham inspiração nos desenhos que seus amigos de infância faziam nas paredes dos bairros populares de Nova York.
''Reizinho'' conquistou a simpatia popular usando sempre um manto vermelho e uma coroa em forma de casquinha de sorvete (virada de cabeça para baixo). Soltando a criança que tem dentro de si, ele nunca respeitou o protocolo seguido pelos monarcas. Nas tiras, habitualmente ''apronta alguma'' em recepções, durante a passagem em revista à guarda real ou na inauguração de monumentos e nos bailes reais.
Ao visitar exposições de arte, adquire esculturas para dotá-las de finalidades lúdicas usando-as como brinquedos de parque de diversões. Protagonizando situações singelas, ''Reizinho'' nunca abriu a boca. Não que fosse mudo, mas Soglow o desenhou para comunicar-se com seus súditos e serviçais apenas através de gestos.
Segundo José Sobral, autor do texto de apresentação do volume, ''Reizinho'' pode ser considerado ''o expoente máximo dos quadrinhos mímicos'', o que o destaca na seleta galeria de personagens cômicos que também prescindiram de elementos verbais como Pinduca (Henry) e Ferdinando (Ferd'nand). Antes de criá-lo, Otto Soglow publicou cartoons para diversas revistas, aperfeiçoando o estilo de desenho no qual predominavam traços redondos e retilíneos.
Em 1946, fundou com amigos o ''National Cartoonist Society'', responsável pelo troféu ''Reuben'', apelidado na época de ''o Oscar dos Quadrinhos''. Em 1972, num reconhecimento profissional de sua obra, ele foi contemplado com o ''Elzie Segar Award'', prêmio instituído pelo King Features Syndicate. Morreu consagrado no dia 3 de abril de 1975, desenhando ''The Little King'' até seus últimos dias de vida.
No Brasil, seu principal personagem teve aventuras publicadas em inúmeros periódicos, entre os quais o ''Suplemento Juvenil'', ''O Globo Juvenil'', ''Diário de Pernambuco'', ''O Gibi'', ''O Guri'' e a revista ''Jujuba''. Esta última mesclou historietas assinadas por Soglow e outras desenhadas por artistas brasileiros.
Durante uma certa temporada, ''Reizinho'' circulou também numa revista própria, lançada pela Rio Gráfica Editora. Num artigo embutido na nova coletânea, o editor Franco de Rosa lembra que o personagem serviu de inspiração para o humorista Jô Soares, que se vestia como o monarca dos quadrinhos durante um quadro de um de seus programas exibidos pela TV Globo.
''Jô representava ajoelhado, com um par de calçados preso aos joelhos, usando túnica e uma coroa estilizada como as do Reizinho. Só não era idêntico por questões de copyright'' salienta. O álbum-coletânea que chega agora ao mercado brasileiro é o nono volume da coleção Opera King, dedicada aos clássicos dos quadrinhos e pela qual já saíram títulos de Recruta Zero, Os Sobrinhos do Capitão, Popeye, Hagar, Pinduca, Mandrake, Betty Bop e Krazy Cat.

Serviço:
- O Reizinho Sua Majestade O Humor, lançamento da Opera Graphica Editora (www.operagraphica.com.br). Preço: R$ 14,90.

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