Leve ao pé da letra as indicações ''aconselhável para maiores de 18 anos'' e ''quadrinhos adultos'', registradas na capa e contracapa do livro-mangá ''Ero-Guro'', uma coletânea de nove histórias nada inocentes de Suehiro Maruo.
O autor é o principal expoente dos quadrinhos underground do Japão. ''Ero-Guro'' é seu segundo título publicado no Brasil o primeiro foi o aclamado ''O Vampiro que Ri'', lançado há pouco mais de 1 ano. Se o cartão de visitas arrebatou os leitores, a nova obra poderá perturbá-los.
Maruo apresenta um rol de perversões sexuais abusando de imagens escatológicas não faltando cenas de coprofilia, canibalismo, incesto, flagelação, gozo com olhos desorbitados e outras depravações. ''Ero-guro'', erótico-grotesco em japonês, é uma das vertentes do hentai, o quadrinho erótico japonês.
O livro compila histórias publicadas originalmente entre 1982 a 1997. Numa das narrativas, inspirada num quadro do pintor surrealista Salvador Dali, um garoto pratica obscenidades com sua avó enquanto seu pai dedica-se ao sadismo desfrutando de crueldade e prazer com a empregada da casa. ''Definitivamente o mundo existe para ser espiado. Participar dele? Nem me passa pela cabeça'' diz um personagem de outra história pautada pelo voyeurismo e por aberrações impublicáveis.
O último episódio é ambientado na Tóquio devastada pela Segunda Guerra, no mesmo verão em que foi preso K, o cínico maníaco sexual que aterrorizou as mulheres da capital japonesa com uma série de crimes de estupro e morte. Neste cenário, uma mulher confunde-se com outras enfrentando a fome, o medo da febre tifóide e a mesma angústia pela espera do marido que foi lutar na guerra.
Ao lado do filho, ela sofre assédio de um sinistro anão, dono de uma barraca de espetinhos e que atua em filmes pornô caseiros. O desfecho trágico e impactante da história ajuda a coroar a trama mais bem resolvida do volume, cujas narrativas escorregam aqui e ali caracterizando-se mais pela violência visual das cenas do que por roteiros bem delineados.
Ilustrando as ''atrocidades'', Maruo cria quadros nada óbvios inserindo figuras misteriosas nas imagens. O traço elegante de seus desenhos já foi descrito pelo Guia del Comic espanhol como de ''uma perfeição quase inumana''. No texto introdutório, o poeta Cláudio Willer abre uma perspectiva menos reducionista de apreciação das ''atrocidades'' cometidas pelo autor.
Informa aos não-iniciados as citações e referências contidas ali a obras de Rimbaud, Salvador Dali e Edgar Allan Poe. Destaca ainda ''a profusão de sugestões remetendo a Georges Bataille, o pensador da transgressão, do erotismo, que se empenhou em mostrar que os extremos se tocam, que o gozo e o prazer, o horror e o erótico, são a mesma coisa''. Bem-vindos ao universo bizarro de Suehiro Maruo.

Serviço:
''Ero-Guro''. Autor: Suehiro Maruo. Lançamento: editora Conrad. Páginas: 224. Preço: R$ 33,00.

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