Curitiba Falar em quadrinhos sem citar Will Eisner é quase impossível, ao mesmo tempo que abordar o teatro contemporâneo no Brasil sem mencionar a Armazém Companhia de Teatro é uma tarefa bem difícil. Essas duas referências se encontram hoje à noite no espetáculo ''Pessoas Invisíveis'', em cartaz hoje e amanhã na Mostra Contemporânea do Festival de Teatro de Curitiba (FTC). A montagem estreou em outubro do ano passado, no Rio de Janeiro, onde a companhia londrinense está fixada desde 1998.
''Pessoas Invisíveis'' marca os 15 anos de atividade do grupo e foi indicada em quatro categorias (atriz, autor, música e cenário) para o Prêmio Shell 2003. O espetáculo é baseado nos temas e roteiros abordados por Eisner em seis ''grafic-novels'', como ''New York - the big city'', ''The building'' e ''Dropsie Avenue''.
As histórias trazem personagens densos, muita vezes caricatos, que foram levados para o palco pelo diretor Paulo de Moraes. ''Montar Eisner era uma idéia antiga que está se formando desde a década de 80'', diz o diretor, que assina também a dramaturgia, ao lado de Maurício Arruda Mendonça.
Filho de emigrantes judeus, Eisner nasceu em Nova York, em 1917. Cursou a De Witt Clinton Scholl, no Bronx, e começou a desenhar em meados da década de 30, na revista WOW - What a Magazine!. No final dos anos 30, Eisner cria para Quality Comics Group, seu primeiro personagem ''The Spirit'', um herói às avessas que povoa a imaginação de quase todos os maníacos por quadrinhos e boas histórias adultas e pelas quais é conhecido até os dias atuais.
Sim, porque para quem nunca leu Eisner, é bom lembrar que suas histórias e personagens não lembram em nada os gibis tradicionais e muito menos é recomendado para crianças recém-alfabetizadas. O artista é categórico na sua obra quando o assunto é romper os códigos e levar para os quadrinhos reflexões É bom ressaltar também que levar essa universo para o teatro é sempre um risco, visto a diferença das linguagens utilizadas. ''Nos quadrinhos, o tempo é mais ágil do que no teatro'', reflete Moraes. ''Em ''Pessoas Invisíveis'' optamos pelo tempo itermediário dessas duas linguagens para montar as cenas'', explica.
Os personagens e o ambiente de Eisner já foram levados para o teatro antes sob a ótica do diretor e ator curitibano Edson Bueno. Em cartaz no início da década de 90, New York foi uma das montagems mais bem-sucedidas de Bueno, que conseguiu reproduzir o universo dos quadrinhos de Eisner numa montagem para lá de ambiciosa.
Paulo de Moraes não chegou a ver o espetáculo e evita comparações com montagens anteriores. Para levar os contos de Eisner para o palco, o diretor teve a intensa participação do elenco, criando simultaneamente texto e encenação. ''Tomamos o cuidado de evitar as armadilhas de uma imitação realista, embora o ponto de partida de nossa história fosse muito comum: habitantes de uma grande cidade em momentos de seu cotidiano. Mas não queríamos personagens que fossem reais'', diz no material de divulgação.
Em entrevista à Folha, falou pouco, como lhe é peculiar.
O espetáculo fixa-se na vida de três habitantes das grandes cidades: Antonio Tonatti (um músico frustrado), Monroe Mensh (um sujeito alheio a tudo e todos) e Geraldo Shnobble (um homem que possui o incrível dom de voar). Quando a montagem começa, todos eles já estão mortos, mas aparecem como fantasmas que não conseguem desligar-se do edifício onde viveram. Com eles, uma galeria de mais de 40 personagens aparecem na história, sempre com situações interligadas.
Para a montagem, Moraes se inspirou também no pintor realista Edward Hopper. É o segundo diretor nesta edição do festival que utiliza essa influência (o primeiro foi Aderbal Freire Filho no sonolento ''A Prova''). O cenário, conta o diretor, tem dois momentos. ''Há uma projeção por trás dos atores, um traço de metro. Depois de meia hora, o cenário muda para um edifício.''
No espetáculo de Bueno, esse edifício tomava, verticalmente, todo o espaço do Guairinha e cenas aconteciam em quase todos os níveis do prédio, antes de um final apoteótico e ousado, quando o cenário ''desabava'' em pleno palco. Moraes prefere não revelar como o edifício é utilizado na montagem atual. ''É um edifício grande. Precisa ver a peça'', resume.
''Pessoas Invisíveis'' consolida um trabalho de preparação de atores realizado pela companhia, iniciado com ''A Ratoeira é o Gato'', em 1994. De lá para cá, o grupo montou espetáculos consagrados pela crítica e público, como ''Sob o sol em meu leito após a água'' (1997), ''Esperando Godot'' (1998), ''Alice através do espelho (1999)'' e ''Da arte de subir em telhados'' (2001).
Em julho do ano passado, a Armazém lançou o 1º DVD do teatro brasileiro, uma versão digital da peça ''Da arte de subir em telhados''. Atualmente a companhia está em cartaz no Rio de Janeiro com a peça que chega hoje ao festival. Depois do FTC, ''Pessoas Invisíveis'' volta ao Rio e se apresenta no meio do ano no Festival Internacional de Teatro de Londrina (FILO).
Ainda hoje, a Mostra Contemporânea do FTC apresenta o espetáculo ''Longa jornada noite adentro'', ''Fausto'' e ''Belarmino e o guardador de ossos''.
Serviço:
''Pessoas invisíveis'', hoje e amanhã, às 21h30 e 20 horas, respectivamente, no Guairinha, dentro da programação do 12º Festival de Teatro de Curitiba. Ingressos a R$ 20,00.

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