Prepare as molduras. O segundo e último álbum de luxo reunindo as capas criadas pelo inglês Dave Mckean para a revista Sandman, cult dos cults dos quadrinhos, já circula no Brasil.
A antologia, batizada ''Capas na Areia'', traz uma impressionante galeria de imagens mesclando fotografia, pintura e colagens de materiais diversos. Os leitores, mesmo aqueles que tenham todas as edições da saga publicadas em português, são brindados com uma edição generosa na qual as ilustrações reproduzidas apresentam-se sem os logotipos (da editora e do título da revista), o que acaba proporcionando a fruição total da arte onírica do artista.
Sandman circulou entre 1989 e 1996 nos Estados Unidos, com posterior tradução no Brasil. Teve 75 números, que foram intercalados com uma ou outra edição especial. Foi o título mais festejado do selo ''Vertigo'', a linha de publicações ''adultas '' da DC Comics. As histórias tematizavam a morte, o sonho, o desejo, o oculto e o inconsciente coletivo.
Repletas de simbolismos, as tramas faziam referências a fatos verídicos e a crenças mitológicas, ecoando influências da fantasia clássica e do universo do horror e magia típico das HQs. Mckean trabalhou na série ao lado do roteirista Neil Gaiman, com quem divide depoimentos sobre suas criações nas páginas de ''Capas na Areia''.
Sandman elevou a dupla britânica ao estrelato. Depois do sucesso, Mckean teve toda sua trajetória anterior revisada pelos leitores, que passaram a valorizar sua participação em títulos como ''Orquídea Negra'', ''Asilo Arkham'', ''Violent Cases'', ''Signal to Noise'', ''Cages'', ''Voodoo Lounge'' e ''Mr. Punch'' a maioria deles produzidos em parceria com Gaiman.
Foi Sandman, porém, que reforçou sua reputação como o sujeito que melhor soube fundir as artes plásticas aos quadrinhos. A antologia publicada em duas partes no Brasil revela-se um impecável portfólio para arrebanhar (e arrebatar) novos admiradores. O primeiro volume saiu em maio desse ano trazendo exclusivamente os trabalhos produzidos para as aventuras do Mestre dos Sonhos, incluindo outros desenhos relacionados ao personagem.
O novo álbum vai além, embutindo criações visuais realizadas para outras mídias, como capas de CDs e pôsteres. Mckean descreve as técnicas utilizadas nas diversas edições ressaltando quase sempre a fotografia, a sobreposição de objetos e o Macintosh. Em pelo menos três passagens, mostra-se obcecado pela idéia de imprimir uma imagem de peixe na capa.
''Dane-se o roteirista!'' exclama num texto. ''Eu quero colocar um peixe na capa e vou colocar um peixe na capa, em parte porque é uma afirmação importante que preciso fazer, mas principamente porque esse peixe já está no meu estúdio há muito tempo e o está empesteando com o seu cheiro''. Em outro trecho, ele lembra quando sofreu censura da editora DC, que limou um bico de seio na capa de número 45 da revista.
''Vocês acreditam, meus bons irmãos, que o biquinho foi cortado, trucidado, editado e retirado? E foi substituído por uma mancha azul? Foi triste, porém real'' anota ele. Triste, porém real, é que seu depoimento não vem acompanhado da versão original não mutilada. A capa inserida na antologia é justamente aquela modificada e aprovada pelos censores. Os leitores ficam desorientados já que, no mesmo texto citado anteriormente, é o próprio autor quem anuncia a publicação da ilustração-matriz. É o único deslize da edição, que chega às prateleiras pela editora Opera Graphica a R$ 8,90.

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