QUADRINHOS - Espadachim renegado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de fevereiro de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
As lendas em torno dos samurais renderiam uma vasta enciclopédia. Em ''Blade A Lâmina do Imortal'' (Conrad), o desenhista Hiroaki Samura acrescenta mais uma às histórias míticas do Japão feudal através de seu personagem Manji, um espadachim fora-da-lei que adquiriu o dom da vida eterna por ter engolido vermes mágicos preparados por uma bruxa.
O mangá chega ao Brasil depois de emplacar no exterior conquistando leitores em diversos países incluindo Estados Unidos, França, Alemanha, Itália e Espanha. O herói é um ronin perseguido pelos soldados por ter violado o código de ética dos samurais ao assassinar seu mestre, um senhor de terras que cobrava impostos ilegais de agricultores em proveito próprio.
Após tomar consciência de que matara vários inocentes a seu mando, passa a vagar pelas cidades sofrendo com seu passado sujo de crimes e combatendo seus caçadores. Para livrar-se do tormento psicológico, terá que cumprir a promessa de matar mil malfeitores. A história é ambientada no Japão durante o segundo ano da era Tenmei (1782-183), período de grande agitação social nas cidades.
Nas páginas iniciais, magistralmente ilustradas, ele entra num confessionário e leva um tiro na testa, desferido por um falso missionário. O dom da imortalidade, porém, logo o coloca de pé para atravessar uma espada no inimigo. Curiosamente, o vilão atende pelo nome de Shido Hishiyasu, criado em homenagem a Sid Vicious, baixista morto da banda The Sex Pistols, pioneira do punk inglês.
As referências à música pop não param por aí. Ao longo da trama, aparecem nomes de personagens em homenagem a Johnny Rotten (vocalista dos Sex Pistols) e à banda Black Sabbath (expoente do heavy metal dos anos 70). Nesta primeira edição, Manji cruza o caminho de Ria Asano, uma garota que deseja vingar a morte dos pais, assassinados por um clã de uma escola de esgrima chamada Itto-ryu.
O espadachim torna-se guarda-costas da menina. Os leitores poderão estranhar uma suástica pintada em sua capa. Um texto introdutório explica as origens do símbolo, surgido em civilizações antigas pré-colombianas, da Grécia, do Egito e em culturas asiáticas: ''O uso aqui da sauvastika (no batismo original) não tem nenhuma ligação com o infeliz uso da suástica pelos cretinos do Partido Nazista. Esses tomaram o símbolo porque ele teria aparecido em antigos objetos germânicos e porque teria sido criado no Nepal, uma nação hindu-ariana e blablablá da habitual e estúpida lengalenga racista''.
A saga de Manji foi publicada pela primeira vez no Japão, sob o título ''Mugen no Juunin'' (Habitante do Infinito), na revista Afternoon. Com sua complexidade narrativa, chamou atenção particularmente pelo traço realista, que misturava desenhos feitos a lápis com desenhos arte-finalizados a nanquim. Provocou impacto também pela audácia do autor em sair das linhas rígidas que sempre orientaram aventuras de samurais.
Além de inserir gírias (algumas, diga-se, ultrapassadas) nos diálogos, o autor criou um herói avesso às normas de conduta tradicionais. O sucesso no Japão foi sucedido pelo estouro nos Estados Unidos onde saiu pela editora Dark Horse Comics, uma das grandes editoras norte-americanas. Na terra de Bush, o título conquistou diversos prêmios, entre eles o Eisner Comic Industry Awards (2000), o mais importante da indústria de HQ.
Serviço:
- ''Blade A Lâmina do Imortal''. Lançamento: editora Conrad (tel. 11/3346-6078). Periodicidade: quinzenal. Preço: R$ 5,20.


