A pansexualidade é a sexualidade do futuro. Todas as mulheres e homens já sentiram e sentem um momento em que são puramente sexo. Não misturar amizade com sexo é uma maluquice. Se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém se dava com ninguém. Quem diz isso, ele jura, não é João Ubaldo Ribeiro, mas uma senhora de 68 anos, CLB, que o dedo acusador dos moralistas empurraria para as portas do inferno. Sorte deles que a senhora baiana vive só de recordações do passado, lembrando suas estripulias sexuais com os filhos dos empregados da fazenda, os ataques de um tio devasso e as orgias com os amigos. Ela ocupa todas as páginas do novo livro de Ubaldo, ‘‘A Casa dos Budas Ditosos’’, que a Editora Objetiva lança agora no mercado.
Apesar do título, não se trata de um manual de ascese espiritual por intermédio do excesso sexual. É um livro de encomenda, escrito para uma coleção, ‘‘Plenos Pecados’’, que tem veteranos e jovens escritores - José Roberto Torero, entre eles - refletindo sobre os sete pecados capitais. Por concessão da Nova Fronteira, o acadêmico Ubaldo escreveu para a Editora Objetiva esse ensaio sobre a luxúria, não sem esclarecer no prefácio que os originais do livro foram entregues por um desconhecido ao porteiro do edifício onde trabalha, acompanhados de um bilhete assinado pelas iniciais CLB. Acreditou? Nem eu.
De qualquer modo, Ubaldo garante ser a antítese da senhora despudorada que passou a vida tirando a roupa e repetindo todas as posições do ‘‘Kama Sutra’’. ‘‘Sou careta’’, diz. ‘‘Acredito em Deus e rezo todos os dias’’, esclarece. Não há razão para duvidar. Católico, ele não identifica no livro motivo para arrependimento. Como Fellini, acha que não existe pecado quando se olha o mundo com olhos inocentes. ‘‘Não sou responsável por tudo o que essa senhora diz, porque sou muito quadrado, monogâmico e um heterossexual bem-comportado.’’ É verdade. Nem uísque ele toma mais. Bebe guaraná com Bufferin. É o máximo que seu fígado suporta.
Para esclarecer de uma vez por todas que a senhora CLB não é seu alter ego. Ubaldo diz que discorda dela quando defende que os heterossexuais são limitados e que o pansexualismo é o futuro - ‘‘Isso se não acabarmos com a espécie, por força de vícios de origem que só fizemos piorar.’’ A última parte dessa defesa de tese bem poderia ser encampada por Ubaldo, considerando alguns personagens de livros como ‘‘Sargento Getúlio’’ ou ‘‘O Sorriso do Lagarto’’, provas de que o homem é mesmo uma invenção com muito passado, pouco presente e nenhum futuro. E, por falar nesses livros mais antigos, neles já é possível ler passagens com cenas explícitas de homossexualismo, uma das fixações da senhora CLB em ‘‘A Casa dos Budas Ditosos’’.
‘‘Os freios são necessários para nosso equilíbrio’’, defende o escritor, não justificando necessariamente a existência da censura. ‘‘Conheço filhos de pais liberais que fumavam maconha e que são absolutamente caretas’’, diz, desconfiando dos avanços da espécie no terreno da moral. ‘‘Confesso que fico chocado com essa senhora provecta do livro’’, declara. Pode parecer cinismo, considerando os disparates da tal senhora CLB, mas, conforme suas palavras, é bom que haja mistérios insondáveis em nossas biografias. O próprio Ubaldo impõe um limite à personagem quando a condena a um aneurisma que pode fazer seu cérebro explodir a qualquer momento.
O outro limite é, claro, a palavra escrita. Ubaldo, constrangido, admite que escreveu um livro menos erótico e pornográfico do que gostaria. Não daríamos a mínima importância a coisas que nos incomodam se fossem apenas faladas, diz, a uma certa altura, a senhora CLB. Certas palavras nunca adquirem passaporte para a escrita, conclui com desânimo. ‘‘E, quando conseguem penetrar pela mão de algum mártir, são logo deportadas de volta, condenadas à clandestinidade ou confinadas em guetos, como fazem com gente’’. Ubaldo, por precaução, usa a frase inicial do ‘‘Ulysses’’, de Joyce, para penetrar no mundo devasso da senhora CLB e sair vergastando os fariseus com sua escandalosa vida sexual.
Se Joyce entra no altar do deus da juventude em ‘‘Ulysses’’, Ubaldo entra no altar de uma senhora em plena decadência. ‘‘Nunca tinha pensado em escrever um livro erótico’’ diz, temendo reações dos hipócritas descendentes daqueles que condenaram ao limbo, no passado, livros de D.H. Lawrence e Henry Miller. ‘‘Carrego nas costas o sentimento de culpa cristão e confesso que me causou certo desconforto descrever algumas passagens da vida sexual da senhora do livro.’’ Especialmente as que mencionam a vocação (reprimida) da baiana ao sadismo. Ubaldo nunca suportou os excessos do marquês, apesar de ter lido Sade na juventude. Prefere as memórias do lascivo Frank Harris.
‘‘Pouca coisa me escandaliza além da violência’’, afirma, mencionando a fixação do marquês como um entrave literário, mas evitando condenar sua filosofia. Ubaldo tenta ultrapassar os próprios limites, como católico, ao colocar na boca da senhora uma frase como ‘‘Cristo não soube dizer o que era a verdade diante do Império Romano porque Ele próprio teve de mentir desde que aprendeu a falar.’’ O homem, segundo a senhora safadíssima do livro da luxúria de Ubaldo, está condenado à mentira, o que o torna, automaticamente, veículo divino comparável à teofania do livro de Jó. Por que Deus mostraria aos homens o vale onde jorra o leite e o mel e os guardaria para si?
Não espere encontrar a resposta definitiva a essa pergunta no livro. Ubaldo não quis escrever um ensaio filosófico sobre a luxúria. ‘‘É um livro na linhagem de Henry Miller e Charles Bukowski’’, define o escritor, que já prepara uma nova obra, ‘‘Noites Leblonianas’’, reunião de contos com histórias do bairro carioca que adotou como residência.

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