Renato Munhoz, 28 anos, é um autêntico apreciador do punk rock. Livre de ondas e modismos, mantém contato com bandas de diversos países, movido unicamente pelo interesse musical. Com cerca de 600 LPs, 500 CDs e 100 compactos, Munhoz não se define como colecionador. ‘‘Só compro o que gosto’’, afirma.
Foi em 1982, aos 12 anos, que nasceu a paixão pelo punk rock. O gênero era ainda muito recente - tinha surgido cinco anos antes na Inglaterra -, mas bastou colocar um disco de coletânea na vitrola para selar amor eterno. Nunca mais Renato deixou esse mundo de sons.
Sem ter onde encontrar material necessário para seu gosto de fã - discos, revistas que abordassem o tema - o então adolescente passou a escrever diretamente às bandas e gravadoras. A primeira correspondência seguiu para a New Face, gravadora e distribuidora, que produzia e comercializava discos e fitas.
A partir daí outras portas se abriram, e a discoteca de Renato Munhoz passou a abrigar raridades. Ele tem, por exemplo, o primeiro disco de punk rock, lançado em 1976 pelo grupo inglês The Damned. O compacto traz ‘‘New Rose’’, de Brian James e ‘‘Help’’, de Lennon e McCartney. A finlandesa Unborn-SF, prensou um lote 100 discos, devidamente numerados. Um dos músicos mandou para o fã curitibano o compacto de número 93.
Um exemplar de um picture disc do grupo Bad Brains, de nove polegadas, teve ‘‘edição limitadíssima’’ da Victory Records, explica Munhoz, com um exemplar na mão. Outra curiosidade é um disco de 1977, da extinta banda Johny & The Self Abusers. Depois que foi desfeita, transformou-se na mundialmente famosa Simple Minds.
Sem pretensõesO gosto em se comunicar com as bandas, gravadoras e revistas, despertado na adolescência, permanece no jovem de 28 anos. ‘‘Tenho amigos que curtem esse tipo de música, assim como eu. Mas é bom deixar claro que não tenho pretensão alguma de ter mais discos que ninguém. Busco apenas aqueles que me dão satisfação’’, avisa. Fã dos Sex Pistols, afirma ter todos os discos da banda, incluindo compactos e piratas.
Como Renato Munhoz descobriu esse caminho intrincado de endereços de bandas e gravadoras alternativas, ao redor do mundo? Fácil: através dos fanzines, revistas especializadas e muito desenvolvidas na Europa e Estados Unidos. Um dos canais para entrar nesse universo é através da Maximumrocknroll. ‘‘É o zine que mais gosto. Foi outro marco musical em minha vida’’, relata. A publicação chegou-lhe às mãos em 1987.
No Brasil o exemplar custa quatro dólares. ‘‘Através dele conheci muita gente que curte o mesmo tipo de som. Mantive contato com pessoas da Ásia, Estados Unidos, Austrália, Peru, Lituânia, Canadá, Itália, Filipinas, Japão, Holanda’’, diz Munhoz. E se correspondeu ainda músicos de diversas bandas.
O contato com os artistas acontece porque eles não estão entronizados nos pedestais erguidos pela mídia, segundo Renato. Essa história, porém, sofre reveses algumas vezes. Houve o caso de uma banda americana que esqueceu imediatamente da fiel galera assim que ganhou projeção em seu país. ‘‘Os ingleses têm maior ideologia’’, observa o fã.
EnganaçãoConhecedor profundo do gênero, Munhoz critica o som reinante de falsos punks. ‘‘Hoje se ouve falar em punk rock estourando na mídia, mas não tem nada a ver. É oportunismo. Os artistas autênticos estão fora; eles correm por outra raia’’, afirma. Para ele a arte genuína tem um público cativo e limitado; não atingiu as massas. Muito embora acredite-se que tenha crescido o número de admiradores nos últimos cinco anos.
O que tanto atrai Renato para este gênero musical? Ele responde:
- A música é mais simples, é mais voltada ao dia-a-dia. Não tem glamour, aquela coisa de fantasia. Ela é direta, realista. Influi no modo de ver a vida, sem modismos, sem idiossincrasias. Não sou punk; o que faço é valorizar esse tipo de música que me mostrou outros caminhos, outros modos de viver e até de tratar as pessoas.

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