John Travolta e Uma Thurman em ‘‘Pulp Fiction’’: produção mescla violência e bom humor com excelente trilha sonoraHá seis anos, a estréia da produção independente ‘‘Cães de Aluguel’’ produziu na paisagem cultural do Ocidente mais ou menos o mesmo impacto de uma explosão de artefato nuclear. Era o filme que se esperava já havia bom tempo. Na tela, qualidades puramente cinematográficas: roteiro astucioso, impecável direção de atores, diálogos brilhantes. E o humor, chocante mas irresistível, trazendo uma carga de liberação como se por trás da criação houvesse alguém sufocado. Alguém como um tal Quentin Tarantino, ex-atendente de vídeo-locadora, devorador de literatura policial (da mais barata - ‘‘pulp’’ - aos clássicos mais sofisticados), espectador insaciável de qualquer título de filme B, ouvido privilegiado para soul, rock e country e formado pela Oficina de Direção do Sundance Institute, último reduto da originalidade no cinema norte-americano. O sucesso súbito e barulhento logo trouxe as primeiras dúvidas para os engajados de primeira hora. E se fosse descabido exagero, e tudo não passasse de superestimadas avaliações sobre alguém cujo universo pop-kitsch estivesse apoiado numa cultura apenas idiomática, captada por um público definido mas limitado ?
A resposta viria em 94. Chegara a hora de ‘‘Pulp Fiction - Tempo de Violência’’ (20h30, HBO). Descaradamente inspirado nos ‘‘pulp magazines’’, revistas policiais americanas que circularam entre 1920 e 1950 com histórias curtas assinadas pelos então desconhecidos Chester Himes, Dashiell Hammet e Raymond Chandler, o filme é todo construído em referência a esta grande tradição do noir made in USA, de certa forma repetindo (citando, é a palavra) o Jean-Luc Godard estreante em 1959 com ‘‘Acossado’’. Mas uma novidade entre tantas que Tarantino oferece é diferir de Godard e montar uma caricatura do american way of life. Entre outras pérolas, há no filme um debate filosófico sobre os méritos comparados do fast-food na França e nos Estados Unidos; ou um especialista em consumir com segurança cadáveres indesejáveis.
‘‘Pulp Fiction’’ oferece antes de mais nada uma formidável galeria de personagens. Vincent e Jules (John Travolta e Samuel L. Jackson) são dois assassinos de aluguel. Jules executa suas vítimas recitando o Eclesiastes. Vincent deve fazer as vezes de guarda-costa para a amante do patrão , Mia (Uma Thurman, morena em homenagem à Anna Karina, atriz-fetiche de Godard), que se revela uma vamp junkie chegada a uma overdose. O caminho do trio vai cruzar com o de Butch (Bruce Willis), lutador de boxe fracassado e com o tal perito em corpos incomodos (Harvey Keitel). Todos ao sabor de situações miseráveis, absurdas e sangrentas. Não há heróis no filme, e esta característica permite ao elenco se espalhar em composições que mais parecem de coadjuvantes soltos por completo e longe de seus registros dramáticos habituais. É um prazer ver finalmente Bruce Willis abdicar de suas caretas de super-duro de matar e se abandonar nos braços de Maria de Medeiros. Mas é sobretudo John Travolta que se supera, a ponto de oferecer um dos momentos mais criativos de ‘‘Pulp Fiction’’, quando dança com Uma Thurman e evoca sua coreografia em ‘‘Os Embalos de Sábado à Noite’’, datada de 20 anos.
Menos sádico e mais estranhamente divertido do que ‘‘Cães de Aluguel’’, ‘‘Pulp Fiction’’ é um filme nervoso e ágil embora não pareça; a maioria dos diálogos demonstra a versatilidade dessa cultura popular aguda e inventiva. Tarantino é também perfeitamente consciente de seu potencial visual, com amplo e variado arsenal de imagens agressivas e coloridas. Com uma formação enciclopédica de cinema, o diretor desenvolveu em apenas dois filmes um estilo que deve tanto a Godard quanto a John Wood, rendendo tributo intermédiário a Sam Peckinpah, Sergio Leone e Jean-Pierre Melville, entre outros. E a fórmula original na elaboração do roteiro - numa espécie de espiral aparentemente desconexa - já achou seguidores, entre eles o macedônio ‘‘Antes da Chuva’’, onde os episódios acabam se encontrando e se fecham. Ou não ?
No momento Tarantino anda brincando de ator em filmes de terceiros. Nos últimos tempos andou tropeçando na própria fama, e quase se complica por superexposição. De sobreaviso há uma legião de órfãos, aguardando o terceiro movimento. Por tudo apresentado até o momento, vale a pena.
qPulp Fiction - Tempo de Violência - 20h30 na HBO.

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