Quem disse que os cantores líricos se deleitam ouvindo Maria Callas e arrepiam toda vez que os sons populares invadem o ambiente? A realidade derruba devaneios do gênero, como fizeram questão de frisar o tenor Fernando Portari e a mezzo Silvia Tessuto, que vivem o casal romântico de ‘‘La Cenerentola’’.
Foi durante uma exposição sobre a pluralidade técnica exigida dos cantores - que vão do barroco ao contemporâneo, passando pelo bel canto e o romantismo - que a conversa chegou aos populares. ‘‘Cantamos de tudo: Rossini, Puccini, Mozart, Schoemberg... Roberto Carlos, se for preciso’’, brincou o tenor.
Cantaria mesmo Roberto Carlos? ‘‘Não tenha dúvida nenhuma’’, respondeu. ‘‘Meu canto é para o público. Tenho minhas paixões que na maioria das vezes diferem completamente das do público, mas são minhas’’.
Porém, nem todas as paixões de Portari são assim tão distantes. Ele ouve, gosta e teria imenso prazer em cantar composições de Jacques Brel, Lamartine Babo, Cartola, Herivelto Martins, Noel Rosa.
Sua colega Silvia Tessuto tem incluída muita música brasileira em seu repertório, pelo singelo motivo dela integrar grupos de câmara. ‘‘Estou acostumada a cantar em pequenos grupos arranjos de música de Carnaval das décadas de 20 e 30’’, contou.
O Teatro Municipal de São Paulo está preparando um espetáculo em homenagem à Chiquinha Gonzaga, pelos 150 anos de nascimento. Deverá acontecer no final do ano e a mezzo será uma das intérpretes. Ela, porém confessa sua tendência a cantar Cole Porter e Gershwin.
Os clássicosO brasileiro tem por mania e cultura copiar tudo que o americano faz, mas acabou por ignorar o culto que esse povo presta aos seus artistas. Enquanto lá os grandes talentos tornam-se clássicos, aqui são prematuramente esquecidos. O público impõe aos nossos ilustres um envelhecimento punitivo, quase criminoso.
‘‘Noel Rosa é um clássico que a gente não entroniza, como fazem os americanos. Eles entronizaram Carl Rogers, Irving Berlin que eram populares e hoje são clássicos’’, observa Silvia. Cantoras do altíssimo nível de Kiri Te Kanawa e Jessie Norman gravam suas canções como se fossem ‘lieds’ de Schumann. ‘‘Têm tanta beleza e tanta riqueza de harmonia e de construção melódica quanto um dos clássicos antigos’’.
Não ficamos longe dessa qualidade artística. Qualquer cantor que se aventurar a interpretar Pixinguinha vai precisar de muito estudo, afirma a mezzo-soprano. ‘‘A extensão vocal terá que ser aumentada’’, explica. Francisco Alves, nos anos 40, gravava músicas que hoje dificilmente terão intérprete à altura, comenta Silvia.
‘‘Chico Alves tinha uma extensão de mais de duas oitavas. Se quisesse cantar ópera, cantaria tranquilamente. Nessa época as canções dependiam muito dos cantores, e o cantor tinha que ser bom’’, alfineta.
‘‘Existia uma coisa básica: cada macaco no seu galho’’, emenda Portari. Sem querer entrar no mérito de valores, o tenor reconhece que hoje ‘‘o colorido é muito maior’’, mas lamenta o que se perdeu no País que são os grandes intérpretes. Nos Estados Unidos isso não aconteceu. Lá tem a Broadway e seus musicais que dá continuidade à arte celebrizada dos grandes do passado.
Fernando Portari, apesar dos seus 27 anos, é um fã confesso de Orlando Silva, especialmente de sua fase jovem, no final dos anos 30, começo dos 40. Muito da história da música brasileira ele conheceu através dos discos do selo Revivendo, editados em Curitiba pelo empresário Leon Barg.
‘‘O nosso País não tem lembrança, quanto mais memória’’, lamenta o tenor. ‘‘Os cantores da década de 50 já estava velho na década de 60. É um pecado porque tudo o que é bonito deveria ter seu espaço guardado e além de tudo, reverenciado. Os americanos querem que a gente consuma o que eles produzem, mas como contrapeso esquecemos o que é nosso por pura incompetência’’.
(Z.C.L.)

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