São Paulo - A Agência Nacional de Cinema (Ancine) divulgou na terça-feira números do mercado cinematográfico de 2012 em tom otimista. A arrecadação das salas atingiu o recorde histórico de R$ 1,6 bilhão. Alta de 12,13% em relação a 2011. Maior que a inflação, portanto. O público acumulado alcançou o número de 146,4 milhões de espectadores, o que também é expressivo. O circuito cresceu.
Onde a numerologia pega, apesar do tom festivo, é na participação das produções nacionais no "market share". Quanto o cinema nacional ocupou do mercado? O número final é 10,62%, insatisfatório, ainda mais para um cinema em boa parte produzido com incentivo fiscal.
O tom é otimista porque o primeiro semestre foi péssimo (5,12%) e o segundo, melhor (15,29%). Na média, os 10,62% da conta de chegada. A agência considera que houve "forte recuperação". Verdade. Mas esses números deveriam ser vistos com preocupação e não com júbilo.
Esse market share de 10,62% é inferior ao de 2011 (17,8%) e muito abaixo do de 2010 (25,6%). Assinala, portanto, uma involução e não uma evolução. Na verdade, recua ao patamar de 2007 (10,3%). Fora dois anos excepcionais, 2010 (25,6%) e 2003 (22%), a participação do Brasil no mercado anda de lado na última década. Não consegue avançar, mesmo com a produção estabilizada em patamar razoável de 80 a 90 longas ao ano.
A questão é que muitos desses filmes sequer conseguem chegar ao circuito e, quando chegam, não se mantêm pelo tempo necessário para encontrar seu público. Alguns são muito mal lançados. O velho "boca a boca", em que pessoas recomendam o filme aos amigos, não existe mais. Títulos promissores podem terminar a carreira prematuramente por desinteresse do público, mas também quando o circuito é tomado por blockbusters. Às vezes, a quase totalidade das salas é ocupada por dois ou três arrasa quarteirões. Difícil fazer política cinematográfica com tal ocupação predatória.
A Ancine comemora os 15,5 milhões de pessoas que foram aos cinemas assistir a filmes brasileiros em 2012. Dos 83 lançamentos nacionais, apenas cinco superaram o milhão de espectadores. Cita duas comédias globais, "Até que a Sorte nos Separe" (3,3 milhões) e "De Pernas pro Ar 2" (1 milhão, apenas na última semana do ano). O comunicado não conta que, das cinco maiores bilheterias de 2012, quatro foram de comédias globais (além das duas citadas, passaram do milhão "E aí, Comeu?", "Os Penetras" e "As Aventuras de Agamenon".
Esse é o retrato de uma cinematografia sadia e diversificada?

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