Maria Paula (Marjorie Estiano) vai terminar a novela com Ferraço (Dalton Vigh), seu algoz, e Bernardinho (Thiago Mendonça) deve beijar Carlão (Lugui Palhares), que, até pouco tempo, só queria explorar o cozinheiro. Esses desfechos de ''Duas Caras'', trama das oito da Globo prevista para acabar no próximo dia 30, não teriam nada de mais não fosse o fato de o autor da trama, Aguinaldo Silva, ter dito que eles não estavam previstos originalmente e são resultado da preferência do público.
''Mas que autor ousaria afrontar essa entidade mítica chamada ''telespectador'? ''Se ele, que é quem manda no controle remoto da televisão, quer que Ferraço, Maria Paula e Renato terminem juntos, então é isso que o Senhor Telespectador vai ter'', disse Silva em seu blog. Ele também já adiantou que vai escrever a cena em que Bernardinha beija Carlão - seria o primeiro beijo gay da história da teledramaturgia brasileira. ''Vocês querem e eu não posso lhes negar isso: sim, vou fazer o beijo gay no final de Duas Caras!'', escreveu. No entanto, segundo ele, a cena ainda terá de ser aprovada pela Globo.
Em tempos de pressão por audiência -''Duas Caras'' mesmo patinou nos números no ínício -, o medo de perder no Ibope parece estar modificando tramas. Mas até que ponto uma novela pode ser mudada sem virar um reality show? ''Desde que Joaquim Manuel de Macedo escreveu ''A Moreninha' e foi às ruas perguntar o que as pessoas achavam, a opinião do público conta para os folhetins'', conta Mauro Alencar, especialista em telenovelas pela USP, citando o livro de 1844 que virou novela em 1965. ''Com a internet, a repercussão é instantânea.''
Entre os autores de novelas, há os que discordam do estilo ''Você Decide'' de Aguinaldo Silva. Marcílio Moraes, que escreveu ''Vidas Opostas'' (2006), na Record, diz que não se dobra à opinião popular. ''Novela é ficção, não reality show. O autor tem de ter o controle sobre a obra e saber levar o público para onde quiser. Pode não agradar a todos. Mas, se a novela for boa, as pessoas continuam vendo nem que seja para xingar'', brinca.
Autor de novelas há mais de 40 anos, Lauro César Muniz é mais moderado. ''Acho esse processo de interação com o público muito produtivo, já perdi a conta de quantos personagens aumentei ou diminuí por causa disso. Mas o autor tem de ter um plano de trabalho definido desde o começo'', afirma.

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