Quem é capaz de se lembrar da famosa cena do chuveiro do filme ''Psicose'', de Hitchcock, sem trazer junto à memória os guinchos de violino que a acompanham?
Ninguém, com certeza. Mas, curiosamente, o impagável efeito sonoro esteve a um fio para não vir à tona, já que o diretor vetara qualquer interferência alheia que pudesse atrapalhar o impacto da imagem das facadas contra a personagem de Janet Leight.
Desobedecendo ao mestre do suspense, Bernard Herrmann preferiu apresentar duas versões, uma em silêncio e outra com a trilha incidental. Nem o cineasta nem o compositor poderiam prever que o tenso trecho orquestral ganharia a imortalidade no imaginário do público, sendo ostensivamente imitado ao longo do século 20.
Herrmann é um dos nomes elencados na pesquisa ''Trilhas Sonoras De Nosferatu a O Senhor dos Anéis, 80 Anos de Música no Cinema'', de autoria do colecionador Guilherme De Martino. O trabalho é um guia básico sobre o gênero reunindo informações sobre trilhas sonoras originais para a telona. Organizado em forma de enciclopédia, traz verbetes de compositores em ordem alfabética reunindo biografias e comentários sobre as peças que criaram para a sétima arte.
Na ficha dedicada a Herrmann, ele escreve: ''O trabalho deste nova-iorquino descendente de russos alcançou tamanha integração entre som e imagem, além da coerência com o desenvolvimento dramático do filme, que é habitual dizer que sua obra é insuperável''. Guilherme, que ganha a vida em Londrina como artista gráfico, enviou a pesquisa para o Programa Petrobras Cultural com o objetivo de obter patrocínio para sua publicação em livro.
Enquanto aguarda o resultado do edital, previsto para o próximo mês de março, estuda as propostas de editoras para imprimir o volume. ''Mandei cópias do trabalho para cerca de 20 editoras. Até agora, duas se mostraram interessadas: a Eduel (editora da Universidade Estadual de Londrina) e a Annablume (editora de São Paulo especializada em publicar teses acadêmicas). Estou avaliando os contatos para ver o que vou fazer'' conta.
Colecionador de trilhas há mais de dez anos, sua relação com o mundo do cinema é antiga. Entre 1996 e 1997, publicou guias de filmes de horror, suspense e policial em bancas pelas editoras Sampa e Escala. Foi nessa época que teve a idéia de escrever o volume. De lá para cá, vasculhou sebos e trocou e-mails com gravadoras, selos, distribuidoras e colecionadores do mundo inteiro visando ampliar sua discoteca especializada.
''Há pouco, me mandaram do Canadá quatro títulos em vinil de Galt MacDermot (autor da trilha do musical hippie ''Hair'')'' revela. Segundo ele, a valorização das trilhas nos últimos anos levou as companhias fonográficas a fuçar os catálogos empoeirados resgatando obscuridades de baú para editá-las em CDs. ''Recentemente, lançaram as trilhas dos dois 'Garganta Profunda', compostas por Luficer Raizing'' avisa.
Para Guilherme, o gênero vem sofrendo um declínio desde os anos 80, quando os temas pop foram alçados ao primeiro plano. ''Muitos compositores foram relegados à simples função de criadores de música incidental, perdendo-se aquilo que as trilhas tinham de mais apreciável nas décadas anteriores: grandes temas principais, com forte valor melódico e os arranjos que este material deveria receber no decorrer do filme'' lamenta.
Ele elege a década de 70 como a mais rica para o filão. ''Havia uma grande variedade de estilos com influências de jazz, música sinfônica, black music e vanguarda. Os filmes europeus estavam em alta e Hollywood ainda não havia estabelecido um padrão'' explica. Guilherme não esconde suas preferências. É fã dos compositores Ennio Morricone (''Era Uma Vez na América'', ''Três Homens em Conflito'', ''Cinema Paradiso'' etc), Lalo Schifrin (''Operação Dragão'', ''Terror na Montanha Russa'', ''Guerra nas Estrelas'' etc) e Quincy Jones (''No Calor da Noite'', ''Noite Sem Fim'', ''A Cor Púrpura'' etc).
O autor salienta que, mesmo presa a tempos rígidos e a encomendas específicas, a música de cinema é uma área de atuação onde a criatividade pode ser exercida mais livremente que nos gêneros populares.
''Nenhum outro campo de atividade musical além do cinema pode dar a um compositor a chance de usar um leque tão variado de informações, ou mesmo a possibilidade de criar novas e exóticas misturas sonoras. Enquanto gêneros como o jazz ou o rock se mantiveram fiéis ou presos a tradições, o compositor de trilhas sonoras pôde misturar à vontade quartetos de cordas com sintetizadores, cravos com instrumentos elétricos ou rock pesado com violinos sem que soassem artificiais ou pretenciosamente ecléticos'' lembra.
A pesquisa reúne comentários de cerca de 500 trilhas e 260 compositores. Abre contando a história da música criada para o cinema. Dedica ainda um anexo a coleções como ''The Best of Godzilla'', ''Beguinner's Guide to Bollywood'', ''Jacques Tati'', ''The Music from UNCLE'' e ''Vanishing Point''. Embora critique a hegemonia do pop no gênero, ele salienta que o cinema contemporâneo voltou a reconhecer a importância de uma trilha sonora instrumental como principal definidora da personalidade de um filme. Cita como exemplo a saga ''Senhor dos Anéis'', cuja música foi assinada pelo canadense Howard Shore.

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