‘‘Psicose’’ foi o maior sucesso da carreira de Alfred Hitchcock. O melhor, porém, vem agora, 26 anos depois, quando suas práticas foram imitadas ou copiadas. As surpresas do filme não são mais inéditas, mas permanecem únicas e, nessa medida, intactas. O pavor será menor, mas o prazer de ‘‘Psicose’’, hoje, é o da pura obra-prima.
O filme foi a aposta de um homem magoado. Alguns filmes muito caros a Alfred Hitchcock haviam decepcionado na bilheteria, como ‘‘O Homem Errado’’ (1956) e ‘‘Um Corpo que Cai’’ (1958). O espaço que parecia cativo do grande mestre do suspense começava a ser ocupado por produções baratas e sensacionalistas.
Nessas circunstâncias, o cineasta julgou que era preciso ser ainda mais sensacionalista, aterrador e surpreendente. ‘‘Psicose’’ é tudo isso, embora esteja longe de representar uma renúncia à sutileza. Hoje todo mundo sabe quem é o culpado pela morte de Marion (Janet Leigh) e quem é a mãe de Norman. Na época, Hitchcock armou um sólido aparato para insuflar temor e medo em seus espectadores. As surpresas são inúmeras. A primeira delas, capaz de desestabilizar o universo de expectativas do público, foi a idéia de assassinar cruelmente a estrela do elenco - Janet Leigh - logo no primeiro terço do filme, no tão sinistro quanto decadente Bates Motel. O impacto da sequência pode levar a esquecer o início deslumbrante. A cena de amor proibido (por ser extra-matrimonial) entre Marion e Sam Loomes; o desfalque que ela dá na firma; sua fuga incerta. Toda essa sequência é de uma sensualidade raras vezes igualada.
Até o assassinato, ‘‘Psicose’’ é um filme. Daí começa outro. Saem o instinto, a feminilidade, a paixão, o pecado (representados por Marion) e entram o raciocínio, a frieza, a inteligência, representadas por Arbogast, o detetive (Martin Balsam) e Lila (Vera Miles), irmã de Marion.
Enfim, com ‘‘Psicose‘‘ Hitchcock vingou-se do público que o abandonava, tratando-o com sadismo explícito, como a dizer: é isso que você queria, então tome. Era o que o público queria.

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