São Paulo, 29 (AE) - Você é capaz de não acreditar, mas Gus Van Sant afirma que durante mais de dez anos alimentou o sonho de refilmar o clássico "Psicose", só assumindo mesmo o projeto depois que o próprio Alfred Hitchcock lhe deu autorização, numa sessão espírita. Ele jura que, durante a comunicação, realizada por meio de uma médium, a resposta de Hitchcock foi pouco clara, mas afirmativa. Sua intenção não foi apenas refazer em cores o filme que o mestre do suspense concebeu em preto-e-branco. Junto com as cores, pretendeu imprimir mais sensualidade ao filme, atualizando-o para o fim dos anos 90. "Psicose" estreou nos cinemas no primeiro semestre debaixo de uma saraivada de críticas negativas. O filme agora está em vídeo. Nada melhor do que compará-lo com o original de Hitchcock, que também se encontra disponível nas locadoras.
Organize o seu "Festival Psicose". Veja um, depois o outro. Com o recurso do rewind ou do quadro-a-quadro, analise detalhadamente os dois filmes. Compare principalmente a célebre cena do assassinato de Marion Crane no chuveiro, com suas 70 posições de câmera para 45 segundos de filme. É uma das cenas mais imitadas da história do cinema. Virou obsessão especialmente para Brian De Palma, que a repetiu inúmeras vezes em seus filmes imitando o estilo de Hitchcock. No dia 13, comemora-se o centenário de nascimento do mestre. Ele continua mais vivo do que todos os seus discípulos. "Psicose", o original, dá de dez em "Psicose", o remake. A rigor, Van Sant não é um hitchcockmaníaco.
Em seus filmes anteriores, não percorreu a vertente do suspense. Fez filmes inovadores, em termos de linguagem e dramaturgia, sobre personagens marginais que arrebataram a crítica e lhe valeram a reputação de ser um dos autores mais talentosos de sua geração: "Drugstore Cowboy" e "Garotos de Programa". Com "Gênio Indomável", trabalhando sobre o roteiro de Matt Damon e Ben Affleck, revelou que, na verdade, era mais convencional sem abdicar totalmente da qualidade. O filme é bom, embora inferior aos outros dois. Com "Psicose", a pergunta que não quer calar é: que bicho mordeu Van Sant? Por que refilmar, achincalhando, um clássico? Mudanças - Além da cor, pouca coisa mudou nos dois filmes. Apenas um que outro detalhe - alguma coisa da cenografia e dos figurinos. O Bates Motel agora aceita cartão de crédito, outro exemplo. É irrelevante. A cor é mais importante. Ao adotar o preto-e-branco, Hitchcock queria evitar a vulgaridade do vermelho-sangue na cena do chuveiro. Van Sant despeja litros de groselha sobre Anne Heche, que refaz o papel de Janet Leigh. A chave do novo filme talvez seja esse colorido excessivo. Van Sant quis fazer a versão kitsch de "Psicose", ou revelar o que havia de kitsch, resguardado pelo preto-e-branco, por trás da aparência de clássico da obra-prima de Hitchcock. Seria uma leitura, digamos, discutível, mas interessante, talvez até respeitável. Só que não é nada disso. Van Sant fez mesmo o "Psicose" cover.
A intenção já era essa quando o cineasta anunciou que iria permanecer absolutamente fiel à versão original. Ele chegou a cronometrar os planos de Hitchcock e a tentar reproduzir o timing com seus atores. Vince Vaughn repete o trabalho corporal de Anthony Perkins, absolutamente brilhante, pois se houve um ator que ficou marcado pelo personagem foi Perkins. Houve outros
claro, mas Perkins é um desses casos de identificação absoluta. Van Sant chegou a mudar de atores - adotou Robert Forster quando o ator que faz o psiquiatra que decifra para o espectador, no fim, o enigma da personalidade de Norman Bates não conseguia repetir suas falas no mesmo ritmo de Simon Oakland, que cria o papel no filme antigo. O timing tinha de ser exatamente o mesmo.
Cover, de cópia. Assim como existem covers na música, que imitam o som de cantores e grupos, Van Sant inaugura o cover no cinema. Seu filme pode não ter (e não tem mesmo) o impacto que o de Hitchcock continua produzindo sobre o espectador. Mas o cover é suficientemente novo no cinema para que o seu filme deixe, pelo menos, de suscitar curiosidade. Só que, comparados os dois filmes, o de Hitchcock impõe muito mais respeito. Serviço - "Psicose" (Psycho). EUA, 1998. Direção de Gus Van Sant, com Vince Vaughn e Anne Heche. CIC Vídeo. Colorido - 109 min.

mockup