Psicopatologias (Wilmar Klein)
Wilmar KleinPsicopatologias
Dividirei a
tela em quatro
segmentos verticais
Tenho ultimamente me interessado pelo assunto, menos pelos aspectos científicos da especialidade do que pela descrição de alguns casos com os quais ela lida e parecem-me especialmente atraentes como subsídios para o meu mais recente passatempo. Consiste esse passatempo em achar equivalentes estéticos para coisas mais ou menos complicadas e patológicas como, por exemplo, a confusão na síntese das sensações que constituem a percepção de um objeto, a distorção de relações espaciais e temporais, a multiplicidade simultânea e caótica de excitações, a união arbitrária de elementos de várias representações, a sensação de irrealidade e transfiguração do mundo externo (a qual, segundo li - no livro adiante mencionado, de onde extraio as citações - é comum nas fases iniciais da esquizofrenia ). Na prática, o que tenho conseguido são insipientes projetos para tingir laranjas de azul e fazê-las cheirar a amoníaco, amplificar absurdamente o tiquetaquear de relógios de pulso e fornecer respostas sem a menor relação com as perguntas. Creio, no entanto, que em breve obterei melhor resultado quando tiver terminado o roteiro para um curta-metragem com base em dois casos clínicos citados no Curso de Psicopatologia (São Paulo, Livraria Editora Ciências, 1980, 8ª ed. atualizada) do professor Isaías Paim, que suponho seja uma autoridade na matéria já que não entendi nem metade do que ele explica.
O primeiro caso diz respeito a um sujeito cuja maneira de pensar pode ser avaliada por este trecho de um conversa com seu médico: Quando percebi que chamavam três vezes às 12 horas em ponto no andar inferior e que um Volkswagen vermelho passava rápido pela rua, senti um medo terrível e compreendi que se havia decidido o destino da Europa.
Já o segundo caso tem como personagem um indivíduo que acreditava que Jesus Cristo havia contratado um assassino para aniquilá-lo (inclusive o pobre-diabo relatava ter ouvido tal notícia no rádio). Segundo esse paciente, entre as especialidades de Cristo estariam a de influenciar pessoas (sem dúvida) - como, p.ex., o soldado que lhe dera um tiro no braço - e irradiar doenças e dores. Ah, sim... a vítima dessa maléfica perseguição divina também encontrava nas letras de músicas populares, nos jornais, nas legendas e nas cenas dos filmes (...) claras alusões à sua pessoa.
Naturalmente (ou nem tanto), tenho em mente fazer uma adaptação bastante livre desse material, de modo que o sujeito que, no relato clínico, está preocupado com o destino da Europa (e do qual só me interessa, na verdade, a maneira como estabelece nexos inexistentes) se convença de que lhe foi atribuída pelo próprio Cristo a missão de matar um homem - e você já adivinhou quem.
Pretendo, portanto, deixar de lado as laranjas azuis com cheiro de amoníaco, e transpor para a tela esse roteiro. Adianto que dividirei a tela em quatro segmentos verticais que me permitirão narrar simultaneamente vários momentos da história. Por conseguinte, estarei usando apenas a quarta parte de cada imagem, o que me proporcionará pelo menos duas vantagens: poderei aproveitar o material não utilizado em incontáveis edições alternativas do filme e - segunda e mais importante vantagem - de qualquer modo, ninguém vai entender nada, o que desde já me habilita a obter os favores da crítica.
P.S.:Se você acha esse roteiro muito louco é porque não conhece a história que o grande Billy Wilder ( Crepúsculo dos Deuses, Testemunha de Acusação, A Montanha dos Setes Abutres, Farrapo Humano, entre outros clássicos ) bolou certa vez. Um cientista descobre uma fórmula cuja aplicação seria capaz de varrer do mapa celeste o nosso planeta e adjacências e manda tatuá-la no que, no tempo em que trabalhei com pornografia, era apelidado de membro viril. Dois detalhes importantes: 1) por ser extensa, a fórmula só poderia ser lida quando o seu suporte estivesse ereto e 2) o cientista era homossexual. Um agente da CIA, hetero, é destacado para se passar por gay e conseguir a fórmula. Wilder pensou em Woody Allen para o papel do cientista e Charles Bronson para o papel do agente.





