Provocativo, "Os Idiotas" espanta o marasmo
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quarta-feira, 14 de julho de 1999
Por Luiz Carlos merten 
São Paulo, 15 (AE) - É o filme mais provocativo do cinema nos últimos tempos. A definição talvez não seja suficiente para fazer justiça a "Os Idiotas". O filme de Lars Von Trier segue sua carreira no Espaço Unibanco. Não é programa para quem quer sair, assistir a um filme e emendar com uma pizza depois. Outro dia, no fim da sessão de "Os Idiotas", os espectadores se levantavam quase constrangidos, como se não conseguissem entender o que haviam visto. O filme provoca perplexidade. Numa época de marasmo, o monge-cineasta da Dinamarca faz filmes para sacudir. Talvez, num certo sentido, mais do que provocativo o filme de Von Trier seja aflitivo. Pois é uma aflição ver a história do grupo que assume a idiotice como forma de contestar os valores estabelecidos da sociedade.
Von Trier já contara a história de uma idiota em "Ondas do Destino". A personagem de Emily Watson era uma louquinha mansa que atingia o sublime por meio da degradação. É de novo o tema de "Os Idiotas", um dos, pelo menos. E, de novo, o cineasta revela esse mundo por meio do olhar de um estrangeiro, agora a mulher que se integra ao grupo e, num assomo de crueldade do diretor, talvez se revele uma idiota de verdade.
Criador do teatro do absurdo, o romeno Eugene Ionesco é lembrado sempre que surge alguma coisa fora dos eixos, mas não tacitamente kafkiana. Na sua peça famosa, as pessoas transformam-se em rinocerontes numa referência à padronização contemporânea. Uns viram rinocerontes (com Ionesco), outros preferem assumir que são idiotas (com Von Trier). O filme é tanto mais aflitivo porque leva o próprio espectador a interrogar-se, no íntimo, se não será, também ele, um idiota.
Von Trier não recua diante de nada, nem mesmo da pornografia, integrando à sua narrativa cenas de sexo explícito. E carrega no humor, um humor ácido que pode ser mais uma vez resultado de uma filiação, mesmo distante, com Ionesco. O público ri muito em "Os Idiotas", pelo menos algumas pessoas riem. Mas é um riso nervoso, na cena em que os idiotas fogem do restaurante para não pagar a conta e o taxista, ouvindo a história, pergunta se eles não vão aplicar-lhe um calote, também. Ou, então, na outra cena em que a mulher acusa as pessoas na piscina de estar abusando dela. Ameaça chamar o marido e vem um dos idiotas, fazendo a linha todo torto.
Não é programa para todos, ou para quem reza na cartilha imbecilizante dos efeitos especiais à Hollywood. "Os Idiotas" abre novos caminhos para o cinema. Integra a pornografia à arte, faz indagações existenciais profundas. Outra não era a intenção de Von Trier, que, depois de um ápice vertiginoso em sua carreira (Ondas do Destino), surpreende com um filme que está ligado à crise das ideologias neste fim de milênio. Por meio das reações aos idiotas, ele mostra que a maioria silenciosa não tem fronteiras e o preconceito existe num país que parece ter resolvido seus problemas materiais, como a Dinamarca, do mesmo jeito que em outro marcado pelas distorções, como o Brasil. Um filme como esse justifica um movimento inteiro. O Dogma, que já está no seu opus 3, mostra que veio para subverter. E ficar.


