PROVOCADOR POR NATUREZA
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de setembro de 2001
Rodrigo Teixeira<br> TV Press 
O paulista Antônio Abujamra é habitualmente imprevisível. Aos 70 anos, o apresentador do ''Provocações'' reluta em fazer fotos, mas assim que começa os cliques, já quer dirigir a sessão. No início da entrevista, faz cara feia e solta a frase-ameaça ''detesto guttembergueanos'', referindo-se aos jornalistas da imprensa escrita. Mas logo fala algo agradável para dissipar o clima. Ele também é verborrágico num momento e monossilábico após alguns segundos. Questionado sobre o tipo de entrevistador que o influenciou, o apresentador nem pisca. ''Os da Gestapo'', ironiza. No entanto, uma das secretárias de Abujamra entrega: ''Ele tenta passar este jeito de bravo, mas tem coração de manteiga''. Palavras da moça.
O estilo desafiador de Abujamra é o mesmo que ele imprime em ''Provocações''. O programa - exibido aos domingos, às 20h30m na TV Cultura, e reprisado às terças, às 23h30m, na Rede Brasil -, chega a atingir ótimos dois pontos de audiência, já que concorre com o ''Fantástico'' e programas esportivos. Diretor de teatro há cinco décadas, Abujamra é reconhecido pelo papel do bruxo Ravengar mesmo após 12 anos de ''Que Rei Sou Eu?'', de Cassiano Gabus Mendes. ''Não me chamam para novelas'', conta Abu, que pisou pela primeira vez em um palco em 1987, após ter dirigido mais de 50 peças. Atualmente, está em cartaz no Rio com ''O Provocador@''.
O programa estreou há um ano para ter apenas 13 edições e acabou permanente. Você se surpreendeu?
Sem dúvida. Muita gente falou que não conseguiria fazer nem os 13 previstos. A surpresa é que é um programa caótico, onde dou voz aos mais diferentes tipos de pessoas, de mendigos a renomados intelectuais. Também declamo poesias, o que é considerado por alguns muito requintado para se fazer na tevê. Mas a verdade é que, quando paro de declamar poesias, chove e-mails de espectadores reclamando. Por isso, tenho minha opinião própria sobre a crítica.
E qual é?
A pessoa quando sabe fazer, faz. A pessoa quando não sabe fazer, ensina aos outros como fazer. E a pessoa que não sabe ensinar aos outros, vira crítico. Gosto muito da frase de (Bertolt) Brecht: ''quando o espectador entendeu tudo é porque a peça não foi boa''. A minha intenção com o programa é ajudar os brasileiros a encontrarem respostas. Vejo o ''Provocações'' como um periscópio sobre o oceano do social. Um ensaio provocativo sobre as sutilezas do óbvio.
Você entrevista personalidades díspares como o apresentador Ratinho e o jornalista Clóvis Rossi. Qual o critério para a escolha?
Não há critérios. Cheguei a entrevistar a mim próprio. Mas entrevistamos, por exemplo, uma moradora de rua, que pela primeira vez na vida teve a oportunidade de ser maquiada. É genial. E, quando escutei ela falar tudo que nossos intelectuais querem falar, fui realmente provocado. A vontade que tenho quando faço entrevistas é de arrancar a alma do entrevistado, mas acabo dando apenas espaço para eles terem liberdade durante alguns minutos.
Você começa a sua peça com o bruxo Ravengar. O personagem virou uma sina?
Pode ser, porque até hoje quando ando nas ruas me chamam de Ravengar. E se perguntam o que fiz de bom na tevê, digo: ''alguns segundos''. A verdade é que todo sucesso exige a queda. Fiz uma participação em ''Andando Nas Nuvens'', mas não me dão emprego na televisão como ator. O ''Provocações'' também foi difícil de emplacar. Foi recusado sem piedade pela Band, SBT e CNT. Só entrou na TV Cultura porque o atual diretor de programação, Walter Teixeira, foi meu aluno da USP.
Por quê você resolveu atuar após 50 peças já dirigidas?
Queria me divertir também. Há um espaço que é só do ator, diretor não entra. Quis me jogar no abismo e agora já tenho asas. Estou com 70 anos e nenhum problema resolvido.


