Provocação e experimentalismo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
Imagine um espetáculo de dança em que a construção da performance é toda feita na hora, a partir do que foi ensaiado entre os bailarinos, de escolhas aleatórias de um computador e da alteração do ambiente por meio da tecnologia. Uma proposta complexa, não-linear e experimental, provocativa, batizada de ''We Cage'', em cartaz de hoje até o dia 14 de março, no Teatro Cleon Jacques, em Curitiba.
O nome ''We Cage'' já demonstra a clara influência do compositor norte-americano John Cage, que, entre outras coisas, estudou os vários ângulos da música eletrônica com diferentes linguagens. Uma dessas pesquisas resultou na coreografia ''Variations V'', em que, ao lado de Merce Cunningham, Cage criou em 1965 o primeiro passo da relação entre dança e tecnologia.
''O que mais admiro na ''Variations V'' é a relação do bailarino com as variações do ambiente, como disparar ou variar os parâmetros. O espetáculo deles (Cage e Cunningham) usou mais som e luz e nós vamos usar mais som e imagem'', explica a diretora e coreógrafa Carmen Jorge, que lidera a PIP Pesquisa em Dança, companhia contemporânea premiada em Minas Gerais, Santa Catarina, Estados Unidos e Itália.
Em ''We Cage'', a PIP leva os conceitos de ''Variations V'' a um patamar mais próximo da tecnologia atual. ''Fizemos uma pesquisa de design de interação, para saber como o computador pode alterar o ambiente. É uma brincadeira de controle e não-controle, porque sorteamos na hora o que os bailarinos vão fazer'', diz a diretora.
São três bailarinas. O computador será o responsável por configurar o espetáculo a partir de cinco diferentes tipos de variáveis com, no mínimo, duas possibilidades. Ou seja, cada uma só vai saber qual a ordem de entrada, onde será a entrada, a direção ou o tipo de deslocamento, assim como o movimento a ser realizado, no momento em que pisar no palco. Isso garante apresentações totalmente distintas.
''O que é bacana é que o coreógrafo vai poder ver na hora uma coisa diferente. E o bailarino tem que desenvolver uma inteligência adaptativa para improvisar'', destaca Carmen. ''Fizemos alguns ensaios abertos e a resposta foi positiva. A construção do ambiente vivo é diferente, instiga as pessoas.''
A proposta não tem como objetivo agradar a todos mas servir como ponto de partida, uma provocação. ''A relação da tecnologia com a dança é uma novidade no Paraná, em Curitiba. Não se agrada todo mundo, seria ingenuidade pensarmos isso. Queremos é que as pessoas, a partir dali, se aproximem da dança, de Merce Cunningham, de John Cage. Vamos correr riscos, perder o controle.'' Quem quiser acompanhar mais sobre o trabalho pode acessar o blog www.pipwecage.blogspot.com.
SERVIÇO
Quando - De hoje até o dia 14 de março, de terça a domingo, às 20h, e sessões extras nos dias 13 e 14 de março, às 16h.
Onde - Teatro Cleon Jacques (R. Mateus Leme, 4.700), em Curitiba
Quanto - O ingresso é uma lata de leite em pó


