São Paulo, 17 (AE) - Bess, a sublime personagem de Emily Watson na obra-prima de Lars Von Trier, era considerada uma louquinha mansa pela comunidade de "Ondas do Destino". O diretor buscava suas referências no mestre da cinematografia dinamarquesa, Carl Theodor Dreyer, para contar a história de amor e redenção de uma mulher que se apaixona por um homem estranho ao mundo conservador em que ela vive. Bess tenta atingir a elevação espiritual por meio da degradação física. Ela talvez esteja na origem do novo filme de Von Trier, "Os Idiotas", que estréia amanhã (18). Os personagens, desta vez, não são louquinhos, mas quase. Comportam-se como idiotas como forma de desafiar os códigos da sociedade estabelecida.
Trata-se de uma provocação de Von Trier, tanto maior porque a idiotice de seus personagens é revelada pelo olhar de uma estranha ao grupo. Novamente a idéia do forasteiro. Crueldade: a mulher usada e abusada pelos idiotas de mentira talvez seja uma idiota de verdade. É o que faz de "Os Idiotas" uma experiência quase insuportável. Mas você precisa ver este filme. Com sua obra precedente, Von Trier levou a extremos a sofisticação do cinema. "Ondas do Destino" é genial, mas "Europa" leva o esteticismo até o grau de um formalismo que tomba no vazio. Com "Os Idiotas", Von Trier muda o rumo.
O filme foi feito no quadro do documento chamado Dogma 95, firmado por Von Trier e Thomas Vinterberg (de Festa de Família), entre outros diretores. O Dogma estabelece um decálogo para a realização de filmes. Dez regras que retiram o cinema da vertente ilusionista para propor uma volta às origens. Domingos Oliveira acha que o Dogma talvez seja a solução para o cinema brasileiro. Peter Greenaway, com seu cinema baseado no artifício
considera o movimento deplorável.
Tanto "Os Idiotas" quanto "Festa de Família", com sua temática do incesto, são filmes sobre uma sociedade enferma, que não resolveu seus problemas afetivos e existenciais. Von Trier diz que o filme dele é, ao mesmo tempo, moderno e nostálgico. Ele acrescenta que, com "Os Idiotas", assume a nostalgia pela nouvelle vague, o movimento que mudou o cinema francês por volta de 1960. Como a nouvelle vague, acha que o Dogma, e "Os Idiotas", em particular, busca novos rumos para a sobrevivência do cinema.
Escrito em quatro dias, rodado em 30, finalizado em três meses, "Os Idiotas" nega o artifício do cinema ao mesmo tempo que o assume. Tem uma cena de sexo explícito, mas o ato que o diretor mostra em detalhe é fake, no sentido de que não envolveu seus atores. Foi feita com atores de filmes pornográficos e inserida na montagem. É um efeito e o Dogma tem entre as suas regras aquela que diz que nenhum efeito é admitido. O diretor afirma que usou o recurso para evitar o constrangimento de seus atores.
Outro artifício: Von Trier admite que a precariedade técnica de "Os Idiotas" é apenas aparente. Ele trabalhou duro com os diretores de fotografia Kristoffer Nyholm, Jesper Jargil e Casper Holm, chegando a manipular pessoalmente a câmera para obter aquele efeito de granulação da imagem. O resultado é uma experiência rara, um filme que pode até irritar, mas sob hipótese alguma deixa o espectador indiferente.

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