PROTESTO ARTE CONTRA A BARBÁRIE
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sexta-feira, 14 de março de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Quem vai parar o texano George W. Bush? A um passo de se tornar o inimigo público número 1 do mundo, o presidente norte-americano continua ameaçando a diplomacia internacional com seus apelos a favor de um ataque ao Iraque.
Para alguns especialistas, só uma queda impactante de sua popularidade nos Estados Unidos seria capaz de impedir a ação armada. Na guerra de propaganda, uma pesquisa divulgada esta semana em Nova York revela que a maioria dos consultados aprova a intervenção militar no Golfo.
Mas a credibilidade das pesquisas tem sido colocada em xeque desde o ''11 de setembro'', quando a manipulação das informações tornou-se regra nos veículos de comunicação. No resto do mundo, as manifestações pacifistas multiplicam-se pelos continentes.
No meio artístico e intelectual, nomes de peso como a cantora Madonna, o escritor José Saramago, o cineasta Oliver Stone, o vocalista do U2 Bono Vox e o ator Sean Penn integram a cruzada anti-bélica. Na Inglaterra, onde o primeiro-ministro Tony Blair vê seu prestígio despencar a cada pronunciamento, estão previstos novos protestos no próximo final de semana.
Hoje, um concerto de rock reunirá diversas bandas e artistas no Shepherd's Bush Empire, em Londres. Paul Weller, Ian McCulloch, Faithless e Evan Dando são alguns dos participantes. Os dois primeiros prometeram levar convidados especiais ao show, que contará com mensagens gravadas de Yoko Ono, Bradly Drawn Boy e David Gray. O dinheiro da bilheteria será doado para as organizações Stop the War Coalition e CND.
Ainda na seara pop do Reino Unido, a iminência do conflito tem levado outros músicos às ruas, entre eles Brian Eno, Damon Albarn (vocalista do Blur), Robert ''3-D'' Del Naja (do Massive Attack), integrantes do Travis, Craig Davis, Ms Dynamite e o ativista de carteirinha Bono Vox (do U2). Também cerrando fileiras, o cantor George Michael anunciou que lançará um álbum ''anti-guerra'' nesta temporada.
Há poucos meses ele lançou um clipe em animação da música ''Shoot the Dog'', no qual o presidente George W. Bush aparece levando seu ''cãozinho'' para passear. O ''cãozinho'', no caso, tem a fisionomia do premier britânico Tony Blair. Outras celebridades locais que já se posicionaram contra a ofensiva americana são o dramaturgo Harold Pinter, o cineasta Ken Loach e os escritores Martin Amis e John Le Carré.
''O que Bush se recusa a nos dizer é a verdade sobre o porquê de estarmos indo à guerra. O que está em jogo não é um tal de 'eixo do mal', mas petróleo, dinheiro e vidas humanas. O azar de Saddan é que ele está sentado em cima do segundo maior campo de petróleo do mundo'' escreveu Le Carré. Nos Estados Unidos, por sua vez, as declarações de artistas têm provocado grande repercussão dando origem a uma sombria volta ao período de ''caça às bruxas'' macarthista dos anos 50.
Na época, o senador Joseph McCarthy (1908-1957) comandou uma perseguição a pessoas suspeitas de serem comunistas, que eram colocadas numa ''lista negra'' e impedidas de trabalhar. Recentemente, o Sindicato dos Atores de Cinema e Televisão dos Estados Unidos (SAG) denunciou a existência de listas semelhantes. Desta vez, os adversários da guerra são tratados como traidores da pátria.
Nos talk shows de rádio, os apresentadores ultraconservadores disparam insultos diários contra os artistas avessos à ''doutrina Bush''. O ator Martin Sheen, que interpreta o presidente dos EUA no seriado televisivo ''The West Wing'', tem sido um dos principais alvos da histeria reacionária. ''Inspeção de armas funciona; guerra, não'' diz ele num comercial de TV, principal peça publicitária da campanha pela paz.
Há pouco, Sheen afirmou ao jornal Los Angeles Times que teriam pedido sua demissão do seriado. O ator Sean Penn, outro militante de oposição, também tem sofrido constrangimentos em seu país. Ele, que esteve recentemente em Bagdá visitando um hospital para crianças, acusa o produtor Steve Bing de ter suspenso um contrato para um futuro filme pelo qual receberia US$ 10 milhões.
O confronto entre ''prós-e-contras'' alimenta reações em cadeia, especialmente em Hollywood, cujas fileiras anti-guerra é engrossada por estrelas como Susan Sarandon, Penélope Cruz, Edward Norton, Alec Baldwin, Mike Farrel, George Clooney e Oliver Stone. Este último afirmou ao jornal alemão Welt am Sonntag que, na situação atual, ''não há nada mais perigoso para os EUA do que ter um ex-alcoólatra como presidente''.
Nem a festa de entrega do Grammy ficou imune ao clima sinistro que ronda a América pós-11 de setembro. A cantora canadense Sheryl Crow revelou que os artistas participantes da cerimônia receberam ''orientação'' para não abrir o bico em torno do iminente ataque americano ao Iraque. Ela mesma foi intimada a tirar uma inscrição de sua guitarra antes de entrar no palco.
No final de fevereiro, Crow juntou-se aos músicos Jay-Z e Nas para fundar a associação Musicians United to Win Without War, como forma de pressionar o governo americano a acatar as decisões do Conselho de Segurança da ONU. A entidade conta com o apoio de Lou Reed, David Byrne, Natalie Imbruglia, Missy Eliot, Mos Def e Outkast. A cantora Madonna também aderiu ao movimento pacifista.
O clipe de seu novo single, ''American Life'', traz imagens de top models desfilando com uniformes militares, intercaladas por cenas de vítimas de guerra e da cantora lançando granadas ao som de batidas eletrônicas. ''Não sou anti-Bush, nem pró-Iraque, sou pró-paz'' anotou ela em seu site. A solução armada para a questão do Golfo também é criticada pela banda de punk rock Green Day.
Já no final do ano passado, o site do grupo trazia uma mensagem de voz do vocalista Billie Joe Armstrong conclamando seus fãs para assinar um abaixo-assinado contra a invasão do Iraque. O coro dos opositores inclui ainda os Beastie Boys, que voltam ao ativismo político com a gravação de uma música contra a guerra. ''In a World Gone Mad'' já está disponível na home page do trio. Foi composta para o novo disco, que está em fase de produção. Entrou antecipadamente na Internet por conta da urgência do tema.


