Foi somente em 2003 que surgiu a primeira lei estabelecendo o ensino obrigatório da história e cultura afro-brasileira, sendo, portanto, incorporada à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Cinco anos depois, foi sancionada a lei 11.645, que passou a incluir, também, as populações indígenas. Segundo o texto, o ensino deve se basear em três quesitos: a consciência política e histórica da diversidade; o fortalecimento de identidades e de direitos; e as ações educativas de combate ao racismo e às discriminações. Tudo precisa ser ministrado de forma que englobe todo o currículo, sobretudo nas disciplinas de História, Artes e Literatura.

Esta foi uma das formas encontradas para que os grupos indígenas e negros saíssem do papel quase inexistente no currículo escolar, ainda que tenham sido importantes protagonistas na formação da história do Brasil. Para isso acontecer de forma efetiva, é preciso que os professores tenham uma boa formação. Pois, mais que passar conteúdos, é importante que a informação não caia na antiga repetição de estereótipos já arraigados, que os colocam numa posição de inferioridade, de caráter primitivo, no sentido pejorativo da palavra. É importante para as crianças relacionarem e identificarem os diferentes corpos da história brasileira para que o preconceito seja minimizado e o respeito à diversidade prevaleça.

Para isto, torna-se fundamental propiciar ao aluno o conhecimento dos aspectos positivos dessa população em relação à cultura nacional, esclarecendo que, apesar da violência e destruição sofridas, foram responsáveis por contribuições que refletem até hoje na história do país. Contudo, é importante que entendam, também, que a participação desses grupos étnicos transformou-se ao longo dos séculos e, atualmente, estão inseridos em outra realidade. Dessa forma, o conhecimento não pode restringir-se à cultura e história indígenas, mas ampliada a discussão, sobretudo, na questão de direitos humanos, com ações durante todo o ano letivo.

A cada bimestre, a equipe pedagógica da Escola Municipal Irene Aparecida da Silva (zona Sul) elege um tema dentro da temática "diversidade". O primeiro a ser tratado este ano foi a cultura indígena. Por meio de diversas atividades, o universo deste grupo étnico foi inserido no programa das disciplinas. Segundo supervisora da escola, Joselen Amarins, os professores resgataram vários aspectos da cultura indígena de forma a contribuir com o respeito às diferenças. "Em cada série, o assunto foi abordado de uma maneira, dando ênfase em uma questão, como música, artesanato, culinária e costumes em geral. O objetivo é mostrar o modo de vida de antigamente e como vivem hoje. Assim, será possível visualizarem todas essas transformações", comenta.

Após entenderem o significado de cada aspecto, os alunos, então, produziram materiais que eram utilizados pelo índios como artesanatos com argila e adereços. "Os alunos do primeiro ano tiveram contato com os brinquedos, como peão e peteca e fizeram a sua própria. Depois, produziram um pau de chuva, um brinquedo muito usado pelas crianças indígenas para reproduzirem o som da natureza e dar ritmo às músicas. Os do segundo ano aprenderam sobre os jogos e brincadeiras típicas infantis. Os alunos do terceiro e quarto ano tentaram reproduzir as cestarias, utensílios que fabricam até hoje. Já as crianças do quinto ano focaram na parte da vestimenta, principalmente os adereços, como cocares e colares."

Além dos objetos feitos por eles, aprenderam, ainda, sobre costumes de caça e as ferramentas que usavam, como estilingue e arapuca. "Os professores falaram sobre as pinturas que faziam nos corpos e o significado delas. Trouxeram semente de urucum, que dá a tonalidade avermelhada, e puderam pegá-la", completa a supervisora, lembrando que um arco e flecha produzido especialmente por um índio da comunidade Kaingang foi cedido à escola. Todos os alunos participaram das atividades, desde a educação infantil até os estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA). "Os adultos estudaram sobre as ervas e remédios naturais e fizeram pinturas em tecidos. Assim como as crianças, se entusiasmaram com a cultura indígena." Tudo será apresentado na I Mostra Indígena, aberta à comunidade, no próximo dia 14 de maio, das 9 às 16 horas, quando será possível, inclusive, tocar e brincar com os objetos.

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