Prosa livre
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Geraldo Bessa <br> <br> TV Press 
Chico Pinheiro se define como um contador de histórias. Sem cerimônias e com invejável animação, o atual apresentador do ''Bom Dia Brasil'' deixa essa característica bem evidente ao contar os ''causos'' e vivências dos seus mais de 40 anos dedicados ao jornalismo.
''Já fiz de tudo um pouco nessa área. Desde assessoria, passando pela chefia de reportagem até chegar ao vídeo e entrevistar. Gosto de entrevistar, tenho muita curiosidade e adoro bater um papo'', admite Chico, nascido na pequena Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul, mas conhecido por suas ''mineirices'' - no jeito e no sotaque - e devoção ao Atlético Mineiro. ''Nasci no Sul por acaso. Fui para Minas Gerais aos 3 meses de idade'', explica.
Além de carregar a bandeira de Minas, é pública a paixão do jornalista, de 59 anos, por música popular brasileira - em especial pelo samba. Essa ligação pode ser vista no ''Sarau'', programa de música e entrevista que ele apresenta às sextas-feiras, às 23h30, na Globo News.
Formado pela PUC de Minas, Chico começou a carreira no Jornal do Brasil no início dos anos 70, até que surgiu a oportunidade de ser chefe de reportagem da Globo Minas. ''Era para trabalhar na cozinha, não para aparecer no vídeo. Eu era um faz-tudo na emissora'', lembra. A experiência nos bastidores levou o jornalista para a frente das câmaras e bancadas dos principais telejornais de emissoras como Band, Record e Globo.
Desde 1996, Chico está de volta à Globo e estava há 14 anos à frente do ''SPTV 1 Edição''. No ano passado, foi chamado para substituir Renato Machado no comando do ''Bom Dia Brasil'', onde está no ar há quatro meses, ao lado de Renata Vasconcellos. ''O jornal matutino é carregado de notícias trágicas sobre economia, sociedade, etc. Temos a missão de informar, mas de um jeito que o público se sinta bem'', acredita.
Você estava no ''SPTV 1 Edição'' - jornal local de São Paulo - desde 1998. Como encarou o chamado para apresentar o ''Bom Dia Brasil''?
Foi uma grande surpresa. Acho que isso aconteceu em um bom momento. Pois estava muito acomodado na minha função em São Paulo. Para mim, meu destino estava traçado: ficar fazendo o ''SPTV'' para sempre (risos). Mas a verdade é que eu não estava querendo mudar, queria era ficar quietinho, no meu canto, com a vida toda organizada.
O Renato Machado tem linguagem e postura bem particulares e ficou 15 anos à frente do ''Bom Dia Brasil''. Sentiu algum receio de rejeição ou comparação?
Não, pois o caminho é o mesmo. O que muda é o jeito de entregar a notícia ao público. O Renato tem um jeito único de se expressar. Já quis caminhar igual a ele. Quando o vi apresentado um jornal pela primeira vez, achei genial como ele conseguia ser direto, íntimo e elegante. Sem demagogia, em termos de preparo intelectual, ele está lá na frente (risos). Não sei se agrego alguma coisa, mas o jornal muda, fica diferente. Quem pode dizer se aumenta ou diminui algo é quem assiste.
A audiência do ''Bom Dia Brasil'' vem caindo ao longo dos anos. Acha que seu tom mais popular e coloquial pode ajudar o telejornal no ibope?
Em termos de audiência, o ''Bom Dia Brasil'' é o noticiário mais importante da manhã brasileira. E, independentemente do apresentador, a matéria-prima continua sendo a notícia. Em um jornal, é inevitável falar de certas coisas: assaltos, denuncias de quadrilhas dentro da Polícia Militar, aumento dos preços! É tanta notícia ruim que o cara não quer nem sair de casa. Quero levar o público para a luta. Por isso, chego aqui cheio de pilha, fazendo barulho, gritando e querendo acordar o ser interior da redação inteira. Quero provocar riso nas pessoas que fazem o jornal e em quem assiste. Fico com medo dessa comparação com o Renato. Ele capta as coisas finas da arte, da música. Ele é mais Mozart e eu sou mais Bach. Sou mais barroco, mineiro e povão.
Você já teve de conter algum exagero para apresentar telejornais?
Tem de ter bom senso. Cada jornal tem seu formato pré-definido. Algumas coisas cabem, outras não. Desde que estava no ''SPTV'' já saudava a nossa querida sexta-feira, o melhor dia da semana, com um: ''Graças a Deus é Sexta-feira!''. Quando falo de sexta, gosto de deixar bem claro que é porque eu cumpri minha missão. Quando vim para o ''Bom Dia Brasil'', todo mundo duvidou que eu iria fazer isso às sextas. Na primeira, mandei bem alto a frase nos últimos minutos do jornal. Agora faço durante a previsão do tempo.
Você entrou para a televisão em 1977. O que mudou no seu processo de trabalho ao longo desse tempo?
Bem no início, a gente trabalhava com filme, tudo em preto e branco. Tinha que revelar o filme, cortar e emendar. Hoje é tudo bem diferente, qualquer pessoa com um ''smartphone'' grava imagem, som, o que quiser, e bota no ar. Com isso, muitos repórteres, e me incluo entre eles, perderam o senso do tamanho das entrevistas. Saio e faço um material gigante e o editor se mata para poder achar o que é filé mignon, dentro de um boi inteiro. Antigamente, quando eu era chefe de reportagem, falava para os meus repórteres que eles iriam sair com 50 pés de filme - 36 pés davam um minuto de imagem. Ou seja, o repórter tinha um minuto e meio para ter a entrevista. A matéria era feita de maneira muito precisa e concisa. Mas aí você tinha problemas.
Quais?
Por exemplo, quando o entrevistado era alguém como o Tancredo Neves, mestre em responder apenas o que ele queria e não falar nada sobre a pergunta do repórter, era complicado. Ele sabia que você tinha pouco filme e começava a enrolar: ''É um prazer imenso receber a visita do jornalista Francisco Pinheiro, da Rede Globo de Televisão, para falarmos sobre o Brasil''. Quando eu fazia alguma pergunta polêmica, ele começava a desviar e o filme acabava. Adotei uma tática diferente quando o entrevistado era assim. Fazia um sinal para o cinegrafista no momento certo em que ele deveria começar a gravar. Fui usar isso com o Tancredo. Ele começou a falar, na hora que fiz a segunda pergunta, ele parou o discurso e me disse: ''Eu não falo para câmara desligada''. Eu não falei que estava ligada. Mas ele, de alguma forma, sabia que não estava gravando. Perguntei como ele descobriu, já que o cinegrafista conseguia deixar o sinal vermelho de gravação sempre ligado. Ele respondeu: ''Eu escuto o barulho do filme'' (risos).
Além do jornal matutino, você está sempre envolvido com a exibição do Carnaval e as gravações do ''Sarau''. Essa versatilidade é planejada?
Nunca tracei planos de nada. Nem entrar para o jornalismo foi um projeto meu. Aconteceu. E quando me formei, era para escrever em jornal. Não foi para trabalhar na tevê e muito menos botar a cara no vídeo. É público que eu gosto muito de samba. Então, essa minha relação com o Carnaval surgiu de maneira natural. No caso do ''Sarau'', começou em 1998 como ''Espaço Aberto''. A Globo News precisava de alguém que fizesse um programa de entrevista, para contar ''causos'', falar de vida de pessoas. A Alice Maria (ex-diretora geral da Globo News) me fez esse convite, falou sobre minha mineirice, meu gosto por contar histórias. E eu aceitei.
A Globo News é um canal de informação. Como você conseguiu inserir música na programação?
Foi difícil. Criamos um formato e começamos a convidar as pessoas. Falei que eu queria fazer algo com música, mas a Alice Maria não quis. Para ela, música não tinha nada a ver com o canal. Porém, um dos primeiros entrevistados foi o Paulinho da Viola. Além de contar a história dele e do Rio que ele conhece, começou a rolar música. Depois desse, eu fiz um programa com o Milton Nascimento. E a música foi surgindo. Negociava com a Globo News, tinha de fazer um programa musical e dois ou três apenas de entrevista. Até que chegou uma hora que a Alice falou que eu tinha vencido. Eram brigas diárias! Ela quem deu o nome do programa e a chance de focar na música. Gravo toda semana e sinto um orgulho enorme do ''Sarau''.


