Prosa cada vez mais refinada
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de setembro de 2014
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
Um professor de Filologia prepara-se para receber uma homenagem da universidade em que lecionou por três décadas. Enquanto esboça um discurso para a cerimônia, passa a limpo sua vida lembrando situações indigestas, como a rigidez de seu pai, a morte misteriosa da mãe, o casamento frustrante, o complicado caso com sua amante e a relação tensa com o filho homossexual.
O professor Heliseu é o protagonista do novo romance do escritor catarinense, radicado em Curitiba, Cristóvão Tezza, um dos principais nomes da literatura contemporânea brasileira. O livro "O Professor" será lançado hoje, às 20 horas, na Vila Cultural Cemitério de Automóveis (Rua João Pessoa, 103-A), com a presença do autor, um dos convidados do 10º Festival Literário de Londrina/Londrix.
Além de distribuir autógrafos, ele participa do debate "Os Caminhos da Literatura Paranaense" ao lado do escritor e crítico Miguel Sanches Neto, com mediação do escritor londrinense Marco Fabiani. "O Professor", publicado há poucos meses, segue a trilha de seu premiado romance "O Filho Eterno" (2007), colecionando elogios nas páginas da imprensa cultural e em blogs especializados.
Tezza está empolgado com a recepção de seu novo romance e com os projetos de adaptação de dois de seus livros, como conta na entrevista que concedeu à Folha 2.
Entrevista
Anos atrás, uma revista solicitou a escritores consagrados que listassem as dez melhores obras literárias brasileiras de todos os tempos - e o escritor João Ubaldo Ribeiro incluiu, sem cerimônia, um livro de sua própria autoria, "Viva o Povo Brasileiro", na relação. Você declarou em entrevistas que "O professor" é seu melhor livro. Incluiria ele numa lista de 10 melhores romances brasileiros de todos os tempos?
"Listas de melhores" são um fenômeno mais jornalístico que literário; são referências interessantes ou curiosas de um momento ou tendência e talvez digam mais dos jurados que da literatura. Eu sinto "O Professor" como um livro diferenciado no conjunto dos livros que eu escrevi; é mais um sentimento pessoal que uma certeza. Mas nem remotamente pensei no cânone da produção brasileira. É um tipo de preocupação que eu, de fato, nunca tive.
Quais os elementos que considera mais bem resolvidos neste romance?
Um romance não é apenas uma fria composição formal; é a constituição de um narrador e de uma visão de mundo que, em boa medida, respondem ao seu tempo. Eu sinto que "O Professor" é um livro de maturidade, nos dois aspectos - formal e de visão de mundo. É um romance mais complexo. Eu até suspeitava que fosse um livro de acesso mais difícil, que teria poucos leitores, mas não é isso que está acontecendo. Nesses primeiros meses de lançamento, está tendo uma resposta dos leitores mais imediata e intensa do que a que "O Filho Eterno" recebeu em 2007, quando saiu. O que é mais bem resolvido nele? Não sei - talvez a simultaneidade narrativa, o jogo com o passado e o presente, um recurso que fui amadurecendo. Hoje já não sinto este recuso como uma técnica, mas simplesmente como a minha linguagem literária.
O protagonista de "O Professor" faz um balanço de sua vida às vésperas de receber uma homenagem da universidade em que trabalhou durante anos. Que balanço você fez de sua vida ao deixar o mundo acadêmico recentemente para se dedicar integralmente à literatura?
Para ser sincero, não tive tempo de fazer balanço, porque de fato, ao sair da universidade, apenas prossegui meu projeto de escritor de sempre, agora em tempo integral. A universidade certamente deixou algumas marcas na minha cabeça - afinal, foram mais de 20 anos em sala de aula e estudos acadêmicos, incluindo um mestrado e doutorado. Foi um tempo fundamental da minha produção literária, porque foi o meu ganha-pão sem exaurir minha capacidade criativa. Tive alguma sorte: evitei radicalmente participar da vida administrativa da universidade, mas sempre gostei da sala de aula. Outro detalhe é que entrei tardiamente na universidade, já aos 34 anos - isto é, eu já era um escritor feito (havia escrito "Trapo") antes de enveredar no mundo teórico acadêmico. Mas quando esse projeto se esgotou - e, é claro, quando senti que poderia sobreviver da literatura e seus derivados (eventos, palestras) - pedi demissão. Não conseguiria esperar até os 70 anos para a aposentadoria.
Em sua bibliografia recente, nota-se que o lançamento de "O Filho Eterno" (2007) interrompeu a sucessão de romances que você vinha publicando ao longo da carreira. Vieram um volume de contos, uma novela e uma autobiografia literária. Qual o motivo dessa diversificação de gêneros?
Foi um conjunto de fatores. Vivendo a literatura em tempo integral, pude dar vazão a alguns projetos secretos, entre eles o de uma autobiografia literária ("O Espírito da Prosa"). Além do mais, assumi uma coluna semanal de crônicas, o que de repente me jogou diante de outras possibilidades, abrindo novas experiências. Os contos de "Beatriz" foram mais ou menos acidentais, nascidos de alguns convites para revistas e antologias. Já "O Professor" era um projeto antigo, já de 5 ou 6 anos. Agora estou começando outro romance, o que significa mais uns dois anos de trabalho.
Dois de seus livros, "Juliano Pavollini" e "O Filho Eterno", serão adaptados para o cinema. Em que fase estão os projetos?
"O Filho Eterno" tem produção do Rodrigo Teixeira (RT Features), que há alguns meses lançou "Heleno", sobre o Heleno de Freitas. A direção será de Paulo Machline. O roteiro já está pronto. "Juliano Pavollini" tem produção e direção de Caio Blat. As filmagens dos dois filmes devem começar em 2015. Nos dois casos, sou apenas o autor dos romances - não participo dos roteiros, por opção minha. Acho que um filme é sempre uma outra linguagem e um outro olhar, e o diretor deve ter uma boa autonomia.
Está satisfeito com as candidaturas presidenciais? Já definiu seu voto?
Bem, nunca estamos satisfeitos com as candidaturas presidenciais, mas não há solução nenhuma fora da política e da democracia representativa. E os candidatos não caem do nada, por maior que seja a intervenção do acaso - eles são, também, o retrato do País. Vou votar pela mudança, mas ainda não me decidi. São muitas variáveis em jogo.


