O primeiro livro dele foi de poesia. Logo, percebeu que seus textos traziam características de prosa, o que o levou a encerrar precocemente sua produção de versos para se dedicar às narrativas de ficção.
Expoente da ''geração 90'', o paulista Marçal Aquino conquistou prestígio com obras marcadas por uma escrita ágil e abordagem original de temas como sexo, crime, violência e corrupção. Ganhou o Prêmio Jabuti com ''Amor e outros objetos pontiagudos'' (1999) e foi finalista do mesmo prêmio em 2002 com ''Faroestes'' (2002).
Também venceu o Prêmio V Bienal Nestlé de Literatura/Categoria Conto com ''Fome de Setembro'' (1991), além de ter faturado o Prêmio do Concurso de Contos do Paraná com ''Miss Danúbio'' (1994). Sua bibliografia inclui ainda vários títulos juvenis e as obras adultas ''Famílias Terrivelmente Felizes'' (2003) e ''Cabeça a Prêmio'' (2003).
Em parceria com o diretor Beto Brant, assinou roteiros e teve algumas de suas narrativas adaptadas para o cinema, entre elas os contos ''Os Matadores'' e ''Ação entre Amigos'' e os romances ''O Invasor'' (2002) e ''Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios'' (2005). Também escreveu para a televisão roteirizando a minissérie ''Força Tarefa'' (Globo). Jornalista de formação, trabalhou nos jornais O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. A seguir, leia entrevista com o autor.

Arrisco dizer que você é o escritor brasileiro vivo com mais obras adaptadas para o cinema. Qual a origem dessa ''vocação'' cinematográfica de suas narrativas? Você sempre foi um cinéfilo de carteirinha, o que teria influenciado sua escrita?
Minha paixão por cinema é antiga, do tempo em que eu ainda nem sabia ler e me levavam às matinês do extinto e glorioso Cine Amparo. Minha cidade natal tinha três cinemas, o que me proporcionou uma educação cinematográfica de primeira. Só que nunca pensei em trabalhar com cinema - sempre quis ser escritor. Minha história como roteirista começou meio por acaso, quando o Beto Brant quis adaptar um texto meu - ''Os matadores'' (1997) - e me chamou para ajudá-lo no roteiro. Foi uma experiência tão magnífica e me encaminhou para outros roteiros. Para mim, aquilo que existe de cinematográfico no meu texto literário tem mais a ver com minha paixão pelos filmes do que com meu trabalho de roteirista.

Sua estreia no mercado editorial foi com um livro de poesias. Depois você passou a publicar apenas contos e romances. O que o levou a abandonar completamente os versos para se dedicar à prosa de ficção?
Como muita gente, comecei escrevendo ''uns poemas'', ou aquilo que eu chamava de poesia, mas, como descobri mais tarde, era prosa aprisionada numa forma poética. Meus poemas tinham trama, personagens etc. Cheguei a fazer uma experiência e transformei um desses ''poemas'' num conto do meu primeiro livro de prosa, ''As fomes de setembro'' (1991). Entendi que eu era um prosador e, a partir daí, dediquei todo meu esforço como escritor à prosa. Nunca mais escrevi poemas - por uma questão de higiene e até por respeito aos verdadeiros poetas, gente que leio com paixão e seriedade há muitos anos, como Drummond, Bandeira, Murilo Mendes e Jorge de Lima. Acho que todo prosador deveria ler poesia, para afinar a lâmina da prosa.

Você foi um dos escritores elencados na antologia ''Geração 90 - Manuscritos de Computador'', de Nelson de Oliveira. Sentiu-se lisonjeado ou incomodado com a rubrica? Como viu as escolhas e o recorte propostos pelo autor?
Nelson foi muito feliz e oportuno ao fazer aquela coletânea, porque mapeou quem estava escrevendo num determinado perfil e momento. Fiquei muito feliz de estar envolvido. Acabou sendo um livro muito importante porque suscitou um monte de questionamentos e discussões, o que é sempre valioso para a literatura. É certo que houve um tanto de equívoco em muitas análises, porque o termo ''Geração 90'' passou a ser visto por muita gente como uma espécie de movimento, de clube ou de ''turma'', e não foi nada disso. Também lembro de muito ranger de dentes e arrastar de correntes de alguns escribas que ficaram de fora - o que, de certo modo, meio que obrigou o Nelson a organizar outra dessas ''antologias'', aquela dos ditos transgressores.

No livro ''Literatura Brasileira Hoje'', o crítico literário Manuel da Costa Pinto assinala que ''para Março Aquino, a literatura é um caso de polícia'', com suas ''personagens saídas do submundo do crime''. Você concorda que essa seja uma das característica mais fortes de sua obra?
Manuel está correto, como sempre. Tenho plena consciência da importância que tipos e situações do submundo têm naquilo que escrevo. É uma questão de interesse pessoal, e também uma influência confessa dos tempos em que trabalhei como repórter policial. Só não concordo quando restringem o que escrevo ao rótulo ''literatura policial''. Não chega a me incomodar, mas é uma facilitação preguiçosa.

O que está produzindo atualmente?
Estou escrevendo um romance chamado ''Como se o mundo fosse um bom lugar'', uma história de amor e derrocada familiar. A trama acontece toda em São Paulo, cenário que eu não contemplava em meus livros desde ''O invasor'' (2002).

Serviço:
- Palestra ''O Brasil Literário'', com Marçal Aquino e mediação de Karen Debértolis
Quando - Segunda-feira às 19h30
Onde - Sala de Espetáculos do Sesc Londrina (R. Fernando de Noronha, 264)
Quanto - Gratuito. Os ingressos devem ser retirados 1h antes na secretaria

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