São Paulo, 29 (AE) -Começam no dia 10 de abril as apresentações dos compositores com obras selecionadas para concorrer ao 3.º Prêmio Visa de Música Popular Brasileira - Edição Compositores. No dia 8 de julho será conhecido o vencedor
que receberá prêmio de R$ 50 mil, além de fazer um disco pela gravadora Eldorado. O prazo final das inscrições foi prorrogado para o dia 10.
É um festival de música, certo. É diferente, entretanto, dos festivais e música habituais - os famosíssimos, que a televisão fez no passado (e volta a fazer este ano) ou os pouco conhecidos, promovidos em cidades do interior. Diferente porque o Prêmio Visa não julga uma canção, mas a obra de um autor.
Conjunto da obra - Será o conjunto da obra, o objeto de avaliação. O candidato inscreve quatro músicas. Se for classificado para as outras fases, terá de apresentar outras três, diferentes. Isso pode evitar que um golpe de sorte - uma composição boa, mas isolada - suplante, na premiação, uma obra sólida. Assim, evita-se que seja premiado o autor de uma música só - e há muitos deles,
A concepção do Prêmio Visa de Música Popular Brasileira, uma produção da Rádio Eldorado patrocinada pelos cartões Visa, é diversa de tudo o que se fez em matéria de concursos de música popular desde a primeira edição, há dois anos e dedicada aos instrumentistas.
De fato, não tinha havido antes festivais para instrumentistas populares (o Prêmio Eldorado é voltado para músicos eruditos). O 1.º Prêmio Visa revelou grandes talentos jovens. O primeiro lugar foi dividido pelo pianista André Mehmari e pelo contrabaixista Célio Barros.
Os outros vencedores foram, por ordem de classificação: o bandolinista brasiliense Hamilton de Holanda, o guitarrista Nelson Veras e o duo de flauta e piano formado por Rodrigo Y Castro e Fábio Torres.
A carreira dos músicos cresceu, em função do prêmio. Até então desconhecido fora do círculo universitário e do de músicos jovens paulistanos, André Mehmari tornou-se uma referência para os novos pianistas - e vem causando espanto entre os veteranos, pela inteligência harmônica, a capacidade de improviso, a qualidade da composição (está escrevendo balés, além de peças curtas), o conhecimento profundo da música brasileira.
O mesmo ocorre com o contrabaixista Célio Barros, um prodígio de técnica e criatividade. Já constam das listas de nossos grandes instrumentistas de qualquer tempo. O bandolinista Hamilton de Holanda, para ficar em apenas mais um exemplo, é um músico prodigioso, cujo prazer em tocar contamina a platéia - ele vai, certamente, mudar a imagem clássica dos bandolinistas, quase sempre muito sóbrios e recolhidos. Hamilton toca choro com a dinâmica e a urgência de um solista de guitarra de rock. Mas atenção: toca choro.
Mônica Salmaso venceu a segunda edição do Prêmio. Não era, antes disso, uma figura nacional - embora fosse intérprete das preferidas de músicos de outras praças que visitavam São Paulo; o carioca Guinga e o mineiro Sérgio Santos, por exemplo, convidavam-na sempre para fazer participação em suas apresentações, aqui.
Mas ela é uma das grandes cantoras do País. Como parte do prêmio, fez um disco, pela Gravadora Eldorado. E o CD "Voadeira" foi unanimemente reconhecido, pela crítica, como obra-prima, trabalho sem concessões, de delicado rigor, espelho de uma personalidade forte, marca obrigatória das verdadeiras intérpretes.
Não é por acaso: Mônica Salmaso e André Mehmari estão à frente do elenco de uma das noites do Heineken Concerts deste ano, que vai ser apresentado em abril.
Datas - A terceira edição terá, como as anteriores, três etapas. Serão seis provas eliminatórias, nos dias 10, 11, 24 e 25 de abril e 8 e 15 de maio; três seminifinais, nos dias 29 e 30 de maio e no dia 15 de junho; e a finalíssima, no dia 8 de julho.
O intervalo de três semanas até a grande final é para que haja tempo de preparar arranjos orquestrais - afinal, todas as composições são, necessariamente, inéditas. As apresentações terão lugar na sala principal do Teatro de Cultura Artística, com entrada franca - os ingressos devem ser retirados na bilheteria do teatro.
O presidente do júri será, mais uma vez, o maestro Nelson Ayres. Ele informa que já se inscreveram 750 compositores. Acredita que o número de inscritos chegue a 1.300 até o fim do prazo.A seleção dos concorrentes será feita sem que os selecionadores saibam quem são eles, pois recebem as fitas ou discos sem qualquer identificação - vêm numerados. Só depois de feita a triagem revelam-se os nomes. Do material que já foi ouvido, boa parte é de canções e música brasileira de formato clássico. Ha pouco pagode e axé, o que é ótimo: revela o cansaço do gênero - e uma certa sofisticação dos inscritos.
Produto sofisticado - É por produto sofisticado, de grande qualidade, que o prêmio procura. Seu criador, João Lara Mesquita, diretor da Rádio Eldorado, diz que a emissora, ao criar o prêmio, apenas cumpriu a proposta de divulgar a boa música. E não deixa de ser curioso que, no ano da terceira edição do Prêmio Visa, já respeitado como o grande concurso musical do País, a TV Globo tenha resolvido ressuscitar seus festivais, uma idéia abandonada há mais de 15 anos.
"Não sei se o festival da Globo é uma consequência direta do Prêmio Visa, mas, sem querer puxar a brasa para o nosso lado, fico com a sensação de que é, sim", diz João Lara Mesquita. "Até porque o Solano Ribeiro, organizador do festival da Globo, veio procurar-me, propondo a realização de seu festival - coisa que não pude aceitar porque, da maneira como ele o estruturou, o rádio não seria o veículo ideal", conta.
Seja como for, o criador do Prêmio Visa acha que o positivo é que haja novos eventos na área. "O Visa deve ter animado os produtores culturais e a própria mídia", diz. "E isso é bom para a música brasileira."
Novas edições do Prêmio Visa estão certas. Em princípio, nos próximos anos voltarão o concurso de instrumentistas, seguido de cantores, chegando aos compositores. E de novo.