PROPOSTA PEDAGÓGICA - Quando a tarefa escolar vira sinônimo de cultura
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segunda-feira, 23 de maio de 2011
Ana Paula Nascimento <br> Reportagem Local 
No início deste ano letivo, os alunos do Instituto de Educação Infantil e Juvenil de Londrina foram surpreendidos com a notícia de que não haveria mais ''tarefas escolares''. Após o estranhamento inicial, foram informados que a partir de então teriam as ''cults'', mas o que seria isso?
Com uma proposta pedagógica diferenciada, há quatro anos a instituição já vinha realizando com os alunos dos ensinos fundamentais 1 e 2 tarefas interdisciplinares, com assuntos que vão além do visto em sala de aula. Em 2011, porém, essas ''tarefas'' passaram a ser chamadas de ''cults'', fazendo referência à palavra cultura.
''Através de pesquisas em diversos tipos de dicionários, nossos alunos puderam constatar que a palavra 'tarefa' tem normalmente uma conotação negativa, pejorativa, e a nossa intenção foi mudar essa visão e tornar o estudo mais prazeroso e interessante'', explica a coordenadora Eliana Morinaka.
Seguindo a ''teoria piagetiana na sua essência'' agregada a estudos da neurofisiologia aplicados na educação, a escola não usa material didático ou apostilas. Todo material utilizado pelos alunos é elaborado pelos professores, que têm como fontes livros, jornais, revistas e a internet.
''Seguimos o conteúdo curricular normal, mas a forma que fazemos é diferente. Procuramos sempre enfocar assuntos da atualidade e assim tornar a educação algo mais vivo e interessante. Quanto tempo um livro didático demoraria para trazer a questão do soterramento dos mineiros chilenos, por exemplo?'', questiona Eliana.
E diferente das escolas tradicionais, a tarefa diária não é uma complementação do que o aluno viu em sala de aula. Cada cult traz um assunto novo, partindo de um texto principal, no qual se baseiam os mais diferentes tipos de questões interdisciplinares. E a cult pode até vir em língua estrangeira: inglês ou espanhol.
Com oito graus de complexidade, o aluno tem a liberdade de escolher a cult diária que considera mais apto a fazer e ela pode ser feita manuscrita, digitada ou on-line, pelo portal da escola. E não é simplesmente fazer a cult e entregar. Há o desdobramento das cults e um ciclo de cults chega a durar 15 dias. Outro diferencial é que cada cult passa por uma correção diária e, caso seja necessário, os alunos recebem orientações específicas para refazê-la.
''Na verdade, os alunos fazem um aprofundamento dos assuntos propostos e no final entregam quase que um 'tratado' sobre tudo que desenvolveram sobre o tema. E sempre enfocamos a importância deles construírem o próprio conhecimento, expressando as suas ideias com autonomia. E a orientação é que não se faça pesquisa na hora da cult'', destaca Eliana.
Há professores disponibilizados no contraturno para atender alunos que preferem fazer as cults na escola, mas o apoio é mais no sentido de orientar a compreensão das questões, fazendo com que o aluno elabore seu próprio raciocínio - orientação que também se estende aos pais quando as cults são feitas em casa.
Com forte exigência das habilidades da leitura e da escrita, Eliana avalia que essa metodologia está em sintonia com os preceitos dos principais testes de avaliação nacionais e internacionais, assim como dos vestibulares. ''Como atendemos somente até a oitava série, já temos retorno positivo dos nossos alunos que se formaram no ano passado e estão se destacando nas escolas tradicionais'', cita.
É o caso da filha do dentista Reinaldo Niekawa, agora no primeiro ano do Ensino Médio. ''Ela estudou no instituto desde os 7 anos e agora chegou a hora de colhermos os frutos. Ela está se dando muito bem em uma escola tradicional e muito se deve ao trabalho de análise de texto que se acostumou a fazer'', considera.
A fonoaudióloga Valentina Simioni Rodrigues, que tem dois filhos estudando na escola, destaca que um dos fatores mais importantes da metodologia é desenvolver a autonomia da criança para o estudo. ''No começo eles estranharam um pouco, porque não era aquela 'tarefinha' que se faz correndo e pronto. Mas agora percebem que a cult complementa a aprendizagem e não 'estudam para a prova', que consideram algo normal em um processo de avaliação'', afirma.
A coordenadora da equipe de ensino do Núcleo Regional de Educação (NRE), Maria Izabel Felix, ressalta que a proposta alternativa do instituto é resultado de uma ''longa caminhada'' e acredita que ela ainda causaria estranhamento e polêmica na sociedade se fosse utilizada em larga escala. ''Imagine o que as editoras de material didático achariam dessa ideia?'', pontua.
Já a pedagoga da equipe de ensino do NRE, Luciana Salomão, ressalta que o instituto está totalmente inserido dentro dos parâmetros curriculares e que há dados que o seu trabalho diferenciado realmente traz benefícios para os alunos, que não passam por dificuldades ao irem para escolas tradicionais no Ensino Médio. ''Como investem muito na leitura, escrita e atualização constante dos materiais, isso acaba sendo um diferencial relevante'', avalia.
O conteúdo completo das cults pode ser acessado pelo site www.ieij.com.br.


