Proposta filosófica perde espaço para cenas de ação
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quinta-feira, 14 de junho de 2012
Luiz Zanin Oricchio <br>Agência Estado 
São Paulo - ''Prometheus'', de Ridley Scott, é um diálogo com sua própria obra - de ''Alien'' a ''Blade Runner'', mas também com o Kubrick de ''2001 - Uma Odisseia no Espaço''. Reencontra, dessa forma, a vertente, digamos assim, mais nobre da ficção científica, a de servir como instrumento de especulação filosófica sobre a origem da vida.
Mas não sejamos tão solenes. Se esta foi a inspiração inicial de Scott, ela pode ter tropeçado em vários problemas que fazem de ''Prometheus'' mais um filme mediano, apesar de grandioso.
Sim, é impossível não se impressionar com as imagens em 3D, em especial se você for vê-lo num bom cinema e, de preferência, com tecnologia Imax, que nos dá a impressão de estarmos ''dentro do filme''. Pelo menos é o que eles desejam - transformar a experiência de ir à sala algo irrepetível na reprodução doméstica, por sofisticada que seja.
Nessas condições ideais que teremos oportunidade de fruir as sequências iniciais, com um ser humanoide, à beira de fantasmagórica cascata, que se deixa desintegrar como meio de espalhar seu material genético e dar origem à vida terrena. Deixa rastos desse ato inicial. É atrás dessas pistas que vai partir a expedição de ''Prometheus'', composta pelo androide David (Michael Fassbender, espelho do personagem de Rutger Hauer em ''Blade Runner''), a frígida executiva Meredith (Charlize Theron) e a heroica expedicionária Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), entre outros.
Deixando de lado as referências externas mais explícitas, o que temos é a expedição Prometheus partindo em busca dos mistérios do universo e da própria vida, atividades mais nobres do cérebro humano. No entanto, esse projeto corporativo (a iniciativa é de um trilionário) esconde outros interesses e complica um bocado as coisas, mas não a ponto de comprometer o idealismo investigativo de Elizabeth, a heroína da história.
O que compromete, não a expedição Prometheus, mas o próprio projeto do filme é a tentativa de popularizá-lo pelo diálogo com o cinema de gênero mais rasteiro. Em algumas passagens, as cenas de horror são interessantes, envolventes e quase insuportáveis, como uma estranha cesariana autoimposta à bordo da nave. Outras beiram o humor involuntário. Scott é presa, muitas vezes, de sua obsessão pela violação do corpo próprio, a ponto de fazer desse elemento a base de todo o seu terror. Repete-se. Desse modo, a aventura intelectual emagrece, em proveito das cenas de ação, que encorpam. O diálogo com 2001 não chega a ponto de levar Scott aos impasses finais de Kubrick. Há uma distância intergaláctica entre os dois cineastas.


