''A escola cidadã do futuro passa necessariamente pelo ensino à distância''. A opinião é do diretor do Instituto Paulo Freire, José Eustáquio Romão, que esteve em Londrina recentemente participando da 2 Jornada de Educação do Curso de Pedagogia da Universidade Norte do Paraná (Unopar). Durante o evento ele ministrou a palestra ''A Escola Cidadã na Sociedade Neoliberal''.
Para Romão, o ensino à distância democratiza a educação porque facilita o acesso de pessoas à escola. ''Em um país de dimensões continentais como o nosso, é necessário utilizar recursos de telecomunicações para resolver o problema da educação. Ou ampliamos a oportunidade das pessoas estudarem, ou vamos perder o rumo da História'', alerta.
Atuando no instituto que pretende dar continuidade ao legado das idéias de Paulo Freire, Romão acredita que fazer isso é apostar na educação à distância. ''Paulo Freire sempre ressaltou que era necessário utilizar as tecnologias mais avançadas na educação, sem perder a interação, a discussão em tempo real com o professor'', avalia.
Por isso, o educador faz a ressalva de que o ensino à distância deve ser presencial, com tutores nas salas de aulas para auxiliar os alunos. ''Isso possibilita a comunicação. Se a aula acontece aqui em Londrina, por exemplo, tem que ter alguém na sala coordenando o grupo que assiste à aula lá no interior do Piauí. É uma oportunidade única dessas pessoas terem aulas com professores de renome internacional. Se não fosse assim, quando eles teriam essa chance?'', exemplifica.
Além do acesso ao ensino em locais onde não existem escolas, Romão enfatiza que o método também propicia o acesso de pessoas que não tem condições financeiras de pagar por um curso superior. ''Se em uma faculdade presencial é cobrado R$ 500,00 por mês por um curso, no ensino à distância eles conseguiram 'democratizar' essa mensalidade, cobrando R$ 150,00, por exemplo'', explica.
Valor que não é nem um pouco ''socialista'', mas de acordo com as regras de mercado, segundo Romão. ''As escolas privadas não ficaram 'boazinhas', nem estão socializando o valor da mensalidade. Esse é o segredo da nova teoria econômica, de ganhar um pouquinho de cada um e aumentar esse volume. Se um professor dá aula hoje para uma sala de 40 alunos, no ensino à distância, a aula vai atingir 15 mil, 20 mil alunos'', afirma.
Quando questionado sobre a qualidade de cursos à distância, Romão simplesmente dispara:''mas de que qualidade estamos falando? qualidade para preparar bons profissionais para o mercado de trabalho? qualidade para preparar lideranças? para fazer justiça no país? A qualidade depende do objetivo que se quer'', contesta.
Romão acredita que é preciso, sim, ter um projeto de nação para definir o tipo de educação que se deseja, mas rejeita a idéia de só começar um projeto com as condições ideais. ''Se formos esperar pelo projeto perfeito, pelas condições ideais, não se começa nada nunca. O melhor é começar, para ir aperfeiçoando. Se nosso projeto de nação for proporcionar o 'paraíso na terra' para uma minoria, e sofrimento e mazelas para uma maioria, então o modelo de educação que temos é de 'ótima qualidade', que prega a exclusão social e ainda faz o excluído se sentir culpado'', argumenta.
Além disso, segundo o educador, o ensino à distância poderia ser um método não só para democratizar o acesso ao ensino superior, mas também ao ensino médio, que há dois anos atrás tinha um déficit de vagas de 50% entre a população de 15 a 18 anos, segundo levantamento do Ministério da Educação (MEC). ''Essa escola (virtual) pode melhorar inclusive a qualidade do ensino médio. Dos cinco mil municípios brasileiros, 90% não têm biblioteca. Já imaginou a diferença que pode fazer uma biblioteca virtual?''.
A fórmula só pode dar errado, para Romão, se a aplicação do ensino à distância, aliando acesso e mensalidades baixas, for deturpado. ''É uma maneira muito fácil de ganhar dinheiro, mas os empresários tem que ter em mente que nesse caso só há ganho no volume. Ganha-se pouquíssimo de cada um, mas bastante com um volume grande'', explica.

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