Preparem-se vilões como o preconceito e a falta de inclusão social, que uma turminha que não voa nem tem visão de Raio-X está reunindo forças para combater toda forma de discriminação contra pessoas com deficiência.
Como qualquer outro super-herói de histórias em quadrinhos (HQs), ''A Turma da Febeca'' é uma galerinha do mundo dos gibis, mas que não possui superpoderes. Ao contrário, cada um dos nove personagens criados pelo roteirista carioca Victor Klier tem alguma deficiência.
O projeto ainda está na cabeça de Klier, que produz roteiros para o Estúdio Megatério, do Rio de Janeiro (RJ), que faz trabalhos para o Ziraldo e a Editora Globo. Ele destaca que o projeto é de caráter comercial, mas que ainda pretende desenvolver cartilhas com os personagens.
Para criar os nove personagens, Klier buscou inspiração na vida de seis garotas. As três criações masculinas são obras apenas da ficção. Febeca, a protagonista que dá nome aos quadrinhos, é uma personagem que reúne as características de duas jovens cadeirantes, Fernanda Willemann, 15 anos, de Jardim (MS), e Rebeca Sehnem, 13 anos, de Foz do Iguaçu.
As duas garotas fazem tratamento no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília (DF). Como as demais jovens que inspiraram o projeto, as duas garotas entraram em contato com o roteirista pelo Orkut. A partir daí começaram a se comunicar pelo MSN até Klier encontrar as meninas pessoalmente, hospedando-se na casa delas durante alguns dias para, como afirma, conhecer um pouco mais a realidade e o dia-a-dia dos deficientes.
''Comecei procurando jovens em idade escolar e decidi conhecê-las para ter uma experiência com a realidade delas, como lidam o preconceito e a amizade. A convivência faz com que a gente deixe de perceber que a pessoa é cadeirante'', explica Klier.
Líder natural e uma personagem cheia de idéias, Febeca não é o que podemos esperar de uma garota apenas politicamente correta. Na descrição do roteirista, a protagonista, inspirada nas duas jovens cadeirantes, faz as coisas corretamente. Klier explica que a idéia de criar um gibi com personagens com deficiência surgiu ao perceber que no mercado editorial não existe esse tipo de abordagem.
Nas histórias, que ainda estão somente no storyboard, a deficiência é visível, mas o roteiro não fala diretamente sobre o tema. ''A cadeira de rodas, por exemplo, é como o coelho da Mônica ou a panela do Menino Maluquinho'', comenta Klier.
Ele conta que numa das histórias, Febeca é convidada a comparecer na diretoria da escola e acaba escutando que a instituição de ensino quer encontrar um troféu antigo. A garota reúne a turma para achar o objeto, esperando com isso, sair do castigo.
Moral da história no final da aventura: depois de resolver o mistério do sumiço do troféu, a diretora decide manter o castigo, o que coloca a personagem em situação de igualdade com os outros alunos.
Tati é outra criação do roteirista inspirada na modelo de Maceió (AL), Thaíse Guedes, 19 anos, que sofreu amputações nas mãos e pernas e passou a usar próteses. Nos quadrinhos, Tati é muito vaidosa e nos dedos das próteses das mãos guarda alguns truques, como um aparelho de MP3. O gibi ainda trará personagens cegos, anões, entre outros.
A londrinense Daiane Ferreira Lopes, 25 anos, também inspirou a criação dos personagens do roteiro. Ela afirma que ''A Turma da Febeca'' mostra o dia-a-dia das pessoas com deficiência. ''As pessoas com deficiência têm algumas limitações, que não as impedem de ter uma vida mais próxima das outras pessoas'', afirma Daiane, que tem paralisia cerebral e trabalha numa lanchonete.
Camila Barbosa Mancini também tem paralisia cerebral. Morando em Presidente Prudente (SP), a jovem revela que inicialmente ficou receosa no primeiro contato com o roteirista pelo Orkut, mas que o projeto acabou ganhando a sua simpatia. ''Acho a idéia muito legal porque é uma maneira de combater o preconceito, valorizando a inclusão das pessoas com deficiência'', comenta Camila.
''A Turma da Febeca'' vem conquistando apoios. Além da equipe de criação do Estúdio Megatério, que desenhou os personagens, a atriz global Sthefany Brito gostou muito da proposta. ''Apoio sim 'A Turma da Febeca' com o maior orgulho. Apoio porque tenha a maior admiração pela força das meninas em quem ele (Victor Klier) se inspirou. Elas não deixaram que isso fosse limite e foram muito além. O Victor está fazendo um trabalho lindo. Conheço-o há um tempo e sei que é um trabalho sério. Tinha combinado com ele que poderia contar comigo para esse projeto. Enfim, acho a idéia de criar os gibis fantástica e tem todo o meu apoio'', afirma Sthefany. (colaborou Ana Paula Nascimento).

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