O pôr-do-sol deixou de ser o principal assunto em Jericoacoara. Foi ofuscado pela polêmica que toma conta da pequena vila: obras. Quando estiverem prontas as construções do plano diretor da Secretaria da Infra-Estrutura do Estado do Ceará, o adjetivo ''pequena'' talvez já não seja mais tão adequado.
O projeto prevê a criação de estacionamento, posto policial, oficina de artesanato, centro de cultura e turismo (agências de câmbio e de viagens, projeções e exposições), centro esportivo (campo de pelada, quadra poliesportiva, quadras de vôlei de praia e quiosques), creche, mercado municipal e posto de saúde. Para caber tudo isso, novas ruas tiveram de ser abertas e algumas das antigas foram estendidas. Calçadas de tijolinho serão colocadas para padronizar o visual paisagístico.
De acordo com Lana Aguiar, coordenadora do Prourbe, programa da secretaria para o desenvolvimento urbano, um levantamento foi feito no vilarejo e se chegou à conclusão de que os equipamentos eram necessários. No Ceará, 44 cidades contam com planos diretores. Jijoca de Jericoacoara, onde fica o povoado, é uma delas. Lá serão gastos nas obras, segundo ela, cerca de R$ 3 milhões, financiados pelo governo por meio de um contrato com o Banco Mundial (Bird).
O tema movimentou moradores e ambientalistas e foi levado ao Ministério Público e à OAB. As reclamações: o medo da descaracterização do vilarejo, a falta de participação da comunidade nas decisões e a inexistência de um estudo de impacto ambiental pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A coordenadora do Prourbe afirma que o material usado nas construções é rústico, respeitando o estilo regional, e que o povo de Jericoacoara participou das decisões.
Líderes locais contestam. ''A população é manipulada. É difícil trabalhar. Equipamento comunitário, tudo bem. Mas calçadas? Quem procura um lugar como este vem atrás do diferencial. É todo o contexto, estar numa vila de pescadores. Estão matando a galinha dos ovos de ouro. Morremos de medo de virar Porto Seguro ou Canoa Quebrada'', diz a paulistana Paula Freiser, dona de pousada, há quatro anos em Jeri e uma liderança do conselho comunitário. O site www.sosjeri.com.br, da ONG fundada por moradores, faz críticas veementes às mudanças e mostra fotos.

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